Dois esfaqueamentos alimentaram protestos violentos na Inglaterra e na Irlanda do Norte nos últimos 10 dias, fomentados online por vozes da direita; para especialistas, fenômeno representa padrão preocupante 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Incêndios ocorrem enquanto a polícia bloqueia manifestantes em Glengormley, perto de Belfast, durante a segunda noite de distúrbios anti-imigração na Irlanda do Norte — Foto: PAUL FAITH / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 17:42 Extrema Direita no Reino Unido: Violência e Ódio Contra Imigrantes Grupos de extrema direita no Reino Unido estão usando episódios de violência para fomentar ódio contra imigrantes, amplificando narrativas distorcidas online e incitando protestos violentos. Especialistas veem um padrão preocupante, onde discursos de políticos como Nigel Farage e figuras como Elon Musk intensificam a retórica anti-imigração, transformando indignação virtual em tumultos nas ruas. A regulação de conteúdo online e a resposta política são desafiadas por este ciclo de desinformação e violência. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O ciclo de violência e agitação da extrema direita no Reino Unido tornou-se assustador e frequente demais. Tudo pode começar com um esfaqueamento, de natureza horrível, que causa medo e raiva. A condenação por parte de líderes políticos e autoridades policiais surge rapidamente. Mas quando o agressor é um imigrante ou uma pessoa negra, uma narrativa maligna e distorcida explode na internet. Políticos e comentaristas de direita aproveitam-se disso para fomentar a indignação em apoio à sua agenda anti-imigração, auxiliados por algoritmos de redes sociais que se alimentam de conflitos e divisões. Em poucas horas, a raiva que fomentam online salta para o mundo real, desencadeando protestos que se transformam em tumultos violentos. Há apelos à calma e promessas de ação por parte do governo e das autoridades policiais. Mas, pouco depois, o ciclo recomeça. Duas vezes nos últimos 10 dias ataques violentos com faca na Inglaterra e na Irlanda do Norte seguiram esse padrão. Na terça e na quarta-feira, manifestantes em Belfast, furiosos com um ataque cometido por um refugiado sudanês, incendiaram carros e propriedades e atiraram objetos contra a polícia. Isso ocorreu após uma noite de tumultos violentos em Southampton na semana passada, depois da divulgação de um novo vídeo sobre o assassinato, em dezembro, de um estudante universitário de 18 anos que foi falsamente acusado por seu agressor de ter cometido um ataque racista. — Existe um roteiro — disse Ciarán O’Connor, analista sênior do Instituto para o Diálogo Estratégico, que pesquisa extremismo, ódio e desinformação globalmente. — Um incidente de violência como esse é identificado e rapidamente amplificado não apenas por um ecossistema doméstico, mas por um ecossistema global, transnacional e de extrema direita, que usa esses incidentes para absorvê-los em sua própria narrativa internacional. Ele afirmou que essa dinâmica se tornou “alarmantemente familiar e até previsível”. O Reino Unido não está sozinho. Em toda a Europa e nos Estados Unidos, grupos políticos de extrema direita em ascensão estão amplificando a frustração e a raiva que as pessoas sentem após um episódio assustador e canalizando-as para a hostilidade contra imigrantes. Pesquisadores dizem que esse padrão é seguido por membros do partido de extrema direita alemão Alternativa para a Alemanha (AfD) e do Partido da Reunião Nacional (Reunificação Nacional) da França. — Passamos de alimentar o ódio online para realmente levá-lo às ruas de diversas maneiras — afirmou Marta Lorimer, professora de ciência política na Universidade de Cardiff. — Certamente estamos testemunhando uma crescente indistinção entre o mundo online e o que acontece no mundo real, e parte do problema é que a classe política parece não saber muito bem como lidar com isso. Lorimer destacou que o Reino Unido é especialmente vulnerável por compartilhar o idioma inglês com os Estados Unidos, o que, segundo ela, facilita que grupos de extrema direita usem as redes sociais para incitar a raiva à distância. Foi o que aconteceu na terça-feira, quando Elon Musk, dono do X, convocou pessoas a protestarem “REPETIDAMENTE e EM ALTO E BOM SOM” em Belfast. Ele destacou uma imagem com uma lista de locais de protesto, divulgada por Tommy Robinson, um agitador anti-islâmico britânico com múltiplas condenações criminais. “Todo o Reino Unido estará nas ruas hoje à noite, às 19h, após mais um ataque de invasores contra o nosso povo”, escreveu Robinson, cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon, no X. Linguagem mais agressiva Nigel Farage, líder do Partido Reformista do Reino Unido, de direita e populista, aproveitou os dois recentes ataques com faca para promover sua agenda política anti-imigração. O partido se tornou uma força política importante no Reino Unido, vencendo eleições locais em todo o país no mês passado e liderando consistentemente as pesquisas eleitorais nacionais. Esse sucesso recente lhe confere mais influência do que tinha há uma década, quando seu partido estava à margem da política britânica. Após a divulgação de imagens de vídeo mostrando policiais algemando Henry Nowak, o estudante universitário, enquanto ele agonizava em dezembro, Farage publicou um vídeo na semana passada incitando o público a “responder a isso com pura e fria indignação”. Ele acusou a polícia de um sistema de justiça “de duas classes” que trata minorias étnicas melhor do que pessoas brancas no Reino Unido. Nesse caso, Farage expressou preocupação com imigrantes, embora o assassino condenado, Vickrum Digwa, um sikh, tenha nascido no país. Em um pronunciamento na quarta-feira, Farage descreveu o ataque com faca em Belfast como uma tentativa de “decapitação”, adotando uma linguagem usada na internet, apesar de nenhuma autoridade policial ou governamental ter se referido ao ocorrido dessa forma publicamente. Nesse caso, a polícia acusou Hadi Alodid, um sudanês de 30 anos, de esfaquear Stephen Ogilvie na cabeça, nas costas e no pescoço, causando a perda de um olho de Ogilvie. — Não tenho a menor dúvida de que esse homem não deveria estar neste país — declarou Farage, embora as autoridades afirmassem que Alodid estava no país legalmente. Sundar Katwala, diretor da British Future, um think tank que se concentra em questões de identidade, disse que políticos como Farage estão usando cada vez mais o que chamou de “momentos decisivos” para atrair a parcela de sua base que deseja que ele adote uma linguagem mais agressiva. Houve aproximadamente 500 homicídios no Reino Unido no ano passado, muitos deles chocantes. Mas se a vítima não for branca, ou se o crime não se encaixar em uma narrativa que demonize os imigrantes, ele não é usado para incitar protestos raivosos. Outros políticos pediram moderação e calma, ao mesmo tempo que tentaram reconhecer a natureza terrível dos ataques com faca. No Parlamento, na quarta-feira, o primeiro-ministro, Keir Starmer, condenou o incidente de segunda-feira contra Ogilvie em Belfast e a violência nas ruas que se seguiu na noite de terça-feira. — Estamos todos enojados com este ataque, mas as sementes da violência e da desordem não têm justificativa — ressaltou ele. Kemi Badenoch, líder do Partido Conservador, disse no X que "as pessoas têm o direito de estar com raiva. E as pessoas têm o direito de esperar que seus políticos protejam nossas fronteiras". Mas ela chamou as cenas de tumulto em Belfast de "profundamente perturbadoras" e disse que "ninguém tem o direito de expulsar famílias de suas casas à força". A Ofcom, órgão regulador do setor de comunicações no Reino Unido, alertou os provedores de serviços online de que eles têm o dever de garantir que não disseminem conteúdo ilegal que possa inflamar uma crise — incitando a violência, por exemplo. Em uma carta aberta divulgada na quarta-feira, a agência escreveu que “já estamos entrando em contato com provedores individuais nos quais acreditamos haver riscos específicos relacionados à presença de conteúdo ilegal associado aos distúrbios civis”. Mas esses esforços pouco fizeram para conter a disseminação de informações incendiárias e frequentemente enganosas nas plataformas. O’Connor, do Instituto para o Diálogo Estratégico, afirmou que sua organização encontrou, nesta semana, repetidos casos de páginas no Facebook com alegações duvidosas de que o autor do ataque em Belfast teria dito “louvado seja Deus” em árabe durante o ataque. Ed Davey, líder do Partido Liberal Democrata no Reino Unido, denunciou o que chamou de padrão em que um crime brutal “nos faz sentir imensa dor e raiva, e então extremistas exploram essa dor e raiva para espalhar ódio e violência, com a ajuda e o incentivo de magnatas das redes sociais como Elon Musk”. Disputa de narrativa A pressão por limites ao comportamento online está renovando as acusações de políticos como o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, de que o Reino Unido está minando o direito à liberdade de expressão dos conservadores. Quando Liz Kendall, secretária de tecnologia do Reino Unido, publicou, nesta semana, sobre novas regras online mais rígidas que o governo está considerando impor, dezenas de pessoas responderam dizendo que o país quer silenciar o debate legítimo. “Vocês fingem que é uma questão de segurança, mas é uma questão de controle!”, escreveu uma pessoa. “NÓS TE VEMOS!!!!” Especialistas que estudam as plataformas online dizem que elas estão fornecendo fóruns para que políticos de direita se integrem mais à corrente principal. — O que estamos ouvindo hoje, há 20 anos, seria considerado absolutamente marginal, coisas completamente absurdas que apenas os partidos políticos mais extremistas defenderiam — salientou Lorimer. Ao mesmo tempo, ela disse, políticos liberais e centristas como Starmer no Reino Unido e alguns democratas nos Estados Unidos estão sentindo pressão para se moverem para a direita com políticas que respondam às preocupações de eleitores irritados e frustrados. Isso força a direita a "intensificar ainda mais suas políticas extremistas, que acabam se normalizando", disse ela. — Você acaba numa situação em que a coisa toda se agrava muito rapidamente, e é exatamente aí que estamos agora.