Confrontos deixaram 12 policiais feridos e 16 presos; autoridades atribuem escalada de tensão a ataques contra imigrantes após esfaqueamento em Belfast Incêndios ocorrem enquanto a polícia bloqueia manifestantes em Glengormley, perto de Belfast, durante a segunda noite de distúrbios anti-imigração na Irlanda do Norte — Foto: PAUL FAITH / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 10:21 Distúrbios Anti-Imigração na Irlanda do Norte: 12 Policiais Feridos e 16 Prisões A Irlanda do Norte viveu uma segunda noite de distúrbios anti-imigração, resultando em 12 policiais feridos e 16 prisões. A violência, descrita pelo governo britânico como "racista", foi desencadeada após um esfaqueamento em Belfast. O suspeito do ataque, um sudanês, teve sua prisão mantida. As autoridades condenam o uso do incidente para fomentar divisões raciais e destacam o papel de figuras da extrema direita na escalada das tensões. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O governo britânico condenou nesta quinta-feira uma segunda noite de violência anti-imigração na Irlanda do Norte, marcada por confrontos entre manifestantes e a polícia, incêndios e ataques contra pessoas de minorias étnicas. Segundo as autoridades, 12 policiais ficaram feridos e 16 pessoas foram presas durante os episódios de distúrbios. Os confrontos ocorreram após um ataque a faca registrado na segunda-feira em Belfast, a capital, ter deixado um homem gravemente ferido. Um vídeo do incidente circulou amplamente nas redes sociais e mostra um homem golpeando repetidamente outro que está caído no chão. A vítima, identificada como Stephen Ogilvie, perdeu um olho e permanece hospitalizada em condição estável. Diante de manifestações violentas que se seguiram na região, o ministro britânico responsável pela Irlanda do Norte, Hilary Benn, classificou os acontecimentos como “violência racista” e denunciou um “clima de medo” imposto a pessoas que foram intimidadas e expulsas de suas casas por causa da cor da pele. — Se você está atacando pessoas com base na cor da pele, como mais isso poderia ser descrito? Isso é banditismo racista, não há nenhuma dúvida sobre isso — afirmou Benn à emissora Sky News. A família da vítima, por sua vez, divulgou um comunicado pedindo privacidade e agradecendo às pessoas que prestaram socorro durante o ataque. Os familiares afirmaram que a rápida intervenção de moradores ajudou a salvar a vida de Ogilvy e agradeceram aos profissionais dos serviços de emergência e aos médicos e enfermeiros envolvidos. E pediram, por fim, que a população rejeite a violência: “Estamos cientes das tensões e das discussões sobre protestos após este incidente. Queremos deixar absolutamente claro que os distúrbios ocorridos durante a noite não são bem-vindos, e que o protesto pacífico é o único caminho a seguir”, escreveram. “Temos muitos migrantes que dão uma contribuição valiosa ao nosso país. (...) Não queremos que esta tragédia seja usada para dividir as pessoas ou alimentar a hostilidade”. O suspeito, identificado como Hadi Alodid, foi acusado de tentativa de homicídio, porte de faca em local público e ameaças de morte contra um funcionário do sistema público de saúde britânico. Em audiência na quarta-feira no Tribunal de Magistrados de Belfast, ele teve a prisão preventiva mantida por quatro semanas. Alodid participou da sessão por videoconferência e contou com a assistência de um intérprete de árabe. A polícia local informou que as motivações do ataque ainda não são conhecidas, mas descartou a hipótese de terrorismo. ‘Comportamento violento’ Na noite de quarta-feira, dezenas de manifestantes encapuzados enfrentaram a tropa de choque em Glengormley, ao norte de Belfast. Tijolos, pedras e coquetéis molotov foram lançados contra as forças de segurança, que responderam com canhões de água. Um veículo do Departamento de Infraestrutura foi incendiado perto da rotatória de Sandyknowes. Manifestantes também tentaram incendiar um imóvel abandonado e atearam fogo a contêineres de lixo. Em Derry, a polícia informou que objetos foram incendiados na Ardmore Road. Outro grupo tentou chegar ao Chimney Corner, hotel que já foi utilizado para abrigar solicitantes de asilo, mas foi impedido pela polícia. — Esse comportamento violento de uma minoria de arruaceiros não será tolerado — disse o vice-chefe da Polícia da Irlanda do Norte, Ryan Henderson, repudiando os responsáveis pelos confrontos. — Pelo contrário, estavam determinados a praticar violência. Vamos levá-los à Justiça, e sei que o Judiciário da Irlanda do Norte está pronto para aplicar longas penas àqueles que levam desordem às nossas ruas. Na quarta-feira, diversas famílias precisaram deixar suas casas sob proteção policial. O chefe da polícia local, Jon Boutcher, afirmou que entre os resgatados havia um bebê de apenas dois meses. Policiais retiraram famílias de diferentes comunidades para levá-las a locais seguros, disse, ressaltando que “não há justificativa” para os episódios registrados e que os responsáveis serão tratados de acordo com a lei. — Resgatamos muitas famílias. E, alías, não eram apenas famílias de comunidades étnicas minoritárias; [mas] de diversas comunidades que acabaram envolvidas nesse comportamento repugnante da noite passada — disse, antes de ser questionado sobre este ser o terceiro ano consecutivo de episódios de violência no país. — Isso vai passar. Autoridades britânicas atribuem parte da mobilização online a figuras da extrema direita, como o ativista Tommy Robinson e o proprietário da rede social X, Elon Musk, que compartilharam conteúdos relacionados ao ataque. Figuras de partidos de extrema direita, como o Reform UK, de Nigel Farage, e o Restore Britain, de Rupert Lowe, atribuíram os acontecimentos às políticas migratórias do governo trabalhista. ‘Terror e medo’ Benn informou que a polícia da Irlanda do Norte receberá reforços da polícia da Escócia, incluindo equipes com cães para auxiliar no controle da ordem pública. Segundo ele, os distúrbios deixaram pessoas de minorias étnicas vivendo em “terror e medo”. — Recebemos relatos de pessoas sendo paradas em seus carros para que lhes perguntassem qual era sua nacionalidade a caminho do trabalho, e isso é completamente inaceitável. Uma enfermeira foi perseguida e intimidada enquanto se dirigia ao Hospital Ulster para trabalhar na noite de quarta-feira, segundo a entidade responsável pela unidade. A instituição informou que ela insistiu em cumprir seu turno apesar das ameaças. A principal mesquita do país também fechou as portas pela primeira vez desde sua fundação, em 1978. Seu presidente, Mohammed Arshed, afirmou que a comunidade nunca havia enfrentado problemas semelhantes. As manifestações violentas ocorreram principalmente em bairros unionistas, predominantemente protestantes e favoráveis à permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido. Alguns participantes dos protestos afirmaram que suas preocupações estão relacionadas ao aumento da imigração. Brendan, encanador de 50 anos que participou de uma manifestação, disse à AFP ser contrário à violência, mas justificou os protestos pela gravidade do ataque. — Já tivemos violência suficiente aqui durante 30 ou 40 anos, com bombas e assassinatos. Ainda na quarta, a ministra da Justiça da Irlanda do Norte, Naomi Long, condenou os ataques contra famílias que nada tinham a ver com o caso, destacando que crianças e jovens famílias ficaram sem casa após os episódios. Além disso, denunciou o "racismo" por trás da violência e acusou aqueles que, nas redes sociais, "instrumentalizaram o medo legítimo que as pessoas sentem diante dos acontecimentos". Long também declarou que o debate sobre o status migratório do suspeito era irrelevante para a avaliação do crime e afirmou que o homem possuía situação migratória regularizada e autorização para permanecer no Reino Unido por cinco anos. Enquanto isso, a vice-primeira-ministra da Irlanda do Norte, Emma Little-Pengelly, afirmou que grupos envolvidos nos confrontos estão tentando explorar preocupações legítimas da população. — O que alguns desses grupos que querem criar esse tipo de desordem e violência estão tentando fazer é manipular uma preocupação genuína de muitas pessoas, assim como a frustração de muitas pessoas. ‘Holofote perigoso’ A primeira-ministra da Irlanda do Norte, Michelle O’Neill, classificou os ataques contra residências como “covardia repugnante” e afirmou que não existe justificativa para os episódios. Ela também descreveu o ataque a faca como “hediondo e errado”, mas alertou para tentativas de usar o caso para atacar pessoas inocentes que vivem e trabalham na região. Já o premier britânico, Keir Starmer, afirmou que as cenas registradas em Belfast foram “chocantes e completamente inaceitáveis”. No X, ele disse que estava claro que pessoas foram alvo por causa de sua origem e afirmou que os responsáveis pelos atos de violência sentirão “todo o peso da lei”. Starmer acrescentou que conversou com líderes locais, além de representantes da polícia e dos serviços de emergência. A deputada Claire Hanna, líder do Partido Social-Democrata e Trabalhista, comparou os acontecimentos a uma “perseguição baseada em raça”. Segundo ela, houve relatos de homens percorrendo bairros para identificar e expulsar estrangeiros. A parlamentar do Sinn Féin Deirdre Hargey afirmou que mensagens divulgadas nas redes sociais incentivaram protestos e ajudaram a mobilizar pessoas para as ruas. A polícia enfrentou críticas após inicialmente informar que o suspeito seria originário da Somália. Posteriormente, as autoridades corrigiram a informação e esclareceram que ele é sudanês. Suleiman Abdulahi, líder comunitário que trabalha com refugiados na Irlanda do Norte, afirmou que o erro colocou a comunidade somali sob um “holofote muito perigoso” e contribuiu para alimentar a violência contra inocentes. Entre 19h e 23h59 de quarta-feira, o Serviço de Bombeiros e Resgate da Irlanda do Norte recebeu 82 chamadas de emergência. As equipes atenderam 33 ocorrências em Belfast, Mallusk, Glengormley e Portadown, incluindo incêndios em veículos, caminhões, residências, prédios abandonados e contêineres industriais de lixo. (Com AFP, Bloomberg e New York Times)