Após assistirem a imagens de grupos mascarados promovendo atos de violência pelas ruas de Belfast — alguns deles atacando casas e comércios de pessoas consideradas imigrantes — membros das comunidades de minorias étnicas da cidade afirmam estar com medo de sair de casa. “Mulheres e crianças estão aterrorizadas e em estado de choque”, disse Twasul Mohammed, que chegou à Irlanda do Norte como refugiado do Sudão em 2016. “Estamos mantendo nossos filhos em casa. Não mando meus filhos para a escola desde que isso aconteceu.” A violência explodiu na terça-feira após um ataque com faca pelo qual um homem sudanês foi acusado de tentativa de homicídio. Naquela noite, grupos mascarados percorreram partes de Belfast, incendiando casas e carros e atacando minorias étnicas. Episódios menores de violência ocorreram também na quarta-feira, aumentando o temor de que os confrontos continuem nos próximos dias. O ministro britânico para a Irlanda do Norte classificou os ataques contra imigrantes como “violência racista de marginais”. Refugiados da guerra voltam a ser alvo Para muitos integrantes das comunidades migrantes de Belfast, os distúrbios trazem de volta traumas que esperavam ter deixado para trás. “É preciso lembrar que estamos falando de comunidades cujas pessoas fugiram da guerra em seus próprios países e já passaram por situações como esta repetidas vezes”, disse Mohammed à Reuters. “Os imigrantes não são o problema. Não somos responsáveis pela crise habitacional nem pelos problemas do sistema de saúde. Todos nós queremos fazer parte desta comunidade e ajudar a construí-la”, acrescentou Mohammed. A Irlanda do Norte viveu três décadas de conflito entre nacionalistas irlandeses majoritariamente católicos e unionistas pró-Reino Unido predominantemente protestantes. Nos últimos anos, segundo alguns organizadores comunitários, as tensões sectárias têm sido gradualmente substituídas por hostilidade contra minorias étnicas. “Esta já é uma sociedade profundamente dividida”, afirmou Patricia McKeown, secretária regional do sindicato do setor público Unison. “Esta é uma sociedade que ainda não superou completamente o conflito e... os instintos mais básicos das pessoas estão sendo explorados por forças muito sombrias e sinistras.” Segundo ela, voluntários do sindicato ajudaram a retirar pelo menos 15 famílias de suas casas na terça-feira e outras 15 na quarta-feira, após elas temerem se tornar alvo dos ataques. Trabalhadores também relataram ter sido abordados por patrulhas de vigilantes nas ruas, especialmente nas proximidades de hospitais. “Temos trabalhadores sendo parados por patrulhas de vigilantes nas ruas de Belfast, particularmente do lado de fora dos hospitais... verificando sua origem étnica e filmando suas placas de veículos”, disse ela. “Temos trabalhadores sendo seguidos na ida e na volta do trabalho. E, na noite passada, uma enfermeira foi perseguida por quatro homens mascarados em um dos grandes hospitais da zona leste da cidade... Esse ódio está colocando vidas em risco.” Resposta da comunidade Ruchira Rangaprasad, que se mudou da Índia para a Irlanda do Norte há três anos, prepara refeições para famílias temerosas com a violência — Foto: REUTERS/Isabel Infantes Apesar disso, McKeown afirma que a violência dirigida às minorias étnicas — a Irlanda do Norte era composta por 97% de pessoas brancas segundo o censo de 2021 — também tem revelado o melhor da comunidade local. Ruchira Rangaprasad, que se mudou da Índia para a Irlanda do Norte há três anos, disse ter recebido uma enorme quantidade de ofertas de ajuda depois de publicar nas redes sociais que prepararia refeições para famílias afetadas. Ela afirmou que mais de 30 voluntários — a maioria desconhecidos — se ofereceram para ajudar na distribuição de dezenas de caixas de alimentos na quarta-feira. “As pessoas têm medo de sair de casa, e comida é uma necessidade básica, especialmente comida nutritiva preparada em casa... Foi por isso que pensei: vou cozinhar e ajudar a alimentar as pessoas”, disse. Kashif Akram, membro do comitê executivo do Centro Islâmico de Belfast, afirmou que a reação solidária mostra um lado diferente da cidade. “É de partir o coração. Ao mesmo tempo, Belfast está cheia de pessoas decentes”, disse Akram, de 44 anos, nascido e criado na Irlanda do Norte. “As pessoas que estão espalhando ódio neste momento são uma minoria; são muito poucas.”
Violência contra imigrantes espalha o medo pelas ruas de Belfast
Distúrbios começaram na terça-feira após um ataque com faca pelo qual um sudanês foi acusado de tentativa de homicídio
Grupos mascarados atacaram casas de imigrantes em Belfast, forçando famílias a fugir após incidente com faca com medo de violência racista. Crises sociais exploram responsabilidade de imigrantes, mas comunidade responde com voluntários oferecendo refeições e apoio às vítimas.










