Um efeito estético de vertigem é o que a escritora alemã Jenny Erpenbeck alcança no romance Kairós, vencedor do International Booker Prize de 2024. Um improvável relacionamento surge de um encontro marcado pelo senso de ocasião.

A palavra Kairós diz respeito, afinal de contas, ao mito grego que representa o momento de oportunidade. É por isso que, voando com asas nos pés, o deus Kairós pode ser capturado pelo cacho que tem na testa; atrás da cabeça não há cabelo e ele pode escapar.

A relação em torno da qual gira a trama se inicia logo que os personagens se conhecem, ao pegarem o mesmo ônibus. O ápice ocorre na primeira noite. O que vem a seguir só pode ser uma queda.

Com uma construção sofisticada, em terceira pessoa, a narração acompanha a jovem Katharina, de 19 anos, e o escritor Hans, de 53 anos, na Berlim Oriental, pouco antes da queda do Muro. A diferença de idade não é o único elemento complicador para o casal. Hans é casado e pai de um adolescente.

A narração em terceira pessoa é interrompida por trechos em primeira pessoa. Essas passagens reproduzem a voz gravada de Hans, presente em fitas que Katharina é obrigada a escutar.