"Mais cedo ou mais tarde, todas as utopias se transformam em romances históricos", escreve Gueorgui Gospodinov em um livro que delineia, abraçando uma ficção ousada e os solavancos da memória, a maneira como se dá esse processo tumultuado.
Ou talvez seja mais preciso dizer que o interesse primordial de "Refúgio do Tempo" é analisar como a história pode, também, se transformar em utopia.
O romance búlgaro, que chega ao Brasil pela Estação Liberdade três anos depois de vencer o respeitado prêmio Booker Internacional, parte de uma premissa fantástica para pensar como operam alguns mecanismos mais sedutores da política global de hoje.
O gatilho da trama é o misterioso Gaustin, um homem com poderes sobrenaturais e sabedoria sem fronteiras, que decide incrementar casas de repouso para tratar pessoas com Alzheimer usando uma técnica incomum: a recriação de ambientes inteiros da juventude, com sons, cheiros e texturas de décadas antigas, para exercitar a memória e combater sintomas de demência.
Mas as salas de "retroterapia" são tão realistas que se tornam um enorme sucesso, atraindo gente sem qualquer problema cognitivo. A clínica vai se ampliando para tomar todo um quarteirão, depois cidades, até mesmo países inteiros. E o livro, bem-humorado desde o começo, acelera rumo à sátira política.












