Leão XIV visita a basílica nesta quarta-feira, no centenário da morte do catalão; obra iniciada em 1882 tornou-se a igreja mais alta do mundo neste ano, mas ainda não está concluída Papa Leão XIV (C) dirige Santa Missa na Basílica da Sagrada Família e inauguração da Torre Jesus Cristo em Barcelona, ​​no dia 10 de junho de 2026 — Foto: STEFANO RELLANDINI / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/06/2026 - 16:18 Antoni Gaudí: Arquitetura e Fé Caminham rumo à Santidade Católica O arquiteto Antoni Gaudí, famoso pela Sagrada Família em Barcelona, pode se tornar santo da Igreja Católica. No centenário de sua morte, uma missa foi celebrada pelo Papa Leão XIV na basílica. Gaudí, atualmente "Venerável", teve suas "virtudes heroicas" reconhecidas pelo Vaticano em 2025. Sua devoção e a transformação da arquitetura em fé sustentam o processo de canonização. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Mais conhecido pela Sagrada Família, o arquiteto espanhol Antoni Gaudí pode se tornar santo da Igreja Católica. Enquanto seu processo de canonização avança no Vaticano, o catalão é homenageado nesta quarta-feira, data que marca os 100 anos de sua morte, com uma missa celebrada pelo Papa Leão XIV na basílica de Barcelona — na qual ele dedicou grande parte da vida e que, apesar da grande fama, ainda não terminou de ser construída. Atualmente, Gaudí está na etapa de "Venerável", um dos estágios iniciais do processo de canonização da Igreja Católica. Em abril de 2025, o Papa Francisco, que morreu dias depois, reconheceu oficialmente suas "virtudes heroicas", concedendo-lhe esse título e colocando o arquiteto catalão formalmente no caminho para a santidade. A causa de Gaudí é antiga. Movimentos em favor de sua beatificação existem desde a década de 1990, e o processo formal avançou ao longo dos anos com a análise de sua vida espiritual, de seus escritos e de testemunhos sobre sua devoção religiosa. O Vaticano considera que o arquiteto transformou sua atividade profissional em uma forma de testemunho de fé, especialmente nos últimos anos de vida, quando se dedicou quase exclusivamente à construção da Sagrada Família. Nascido em 1852 em uma família católica de caldeireiros no sul da Catalunha, Gaudí tornou-se um dos arquitetos mais requisitados da Barcelona de sua época. Importantes burgueses e empresários logo passaram a encomendar projetos ao jovem de temperamento forte e fascinado pela natureza, que já havia chamado atenção durante seus anos de universidade. Mas uma série de mortes de pessoas próximas levou o arquiteto a realizar um jejum extremo em 1894. Sua fé saiu fortalecida daquela crise e, a partir de então, Gaudí adotou um estilo de vida austero, quase místico, no qual alguns seguidores acreditaram reconhecer traços de santidade. — Não é que Gaudí fosse um bon vivant, mas ainda vivia ligado a coisas muito humanas, como a vaidade e a ambição. E então, naquele momento, ele começa a colocar o próprio eu depois de Deus — disse Armand Puig Tàrrech, sacerdote e teólogo que participou da elaboração do documento de 1,7 mil páginas entregue ao Vaticano para solicitar sua beatificação. Dono de um temperamento difícil que nunca conseguiu domar, Gaudí, que permaneceu solteiro durante toda a vida, detestava bajuladores e até mesmo se recusava a posar para fotografias, segundo relatam seus biógrafos — um contraste enorme com os milhões de pessoas que visitam suas obras todos os anos e transformaram seu nome em uma marca altamente lucrativa para o turismo de massa em Barcelona. — O milagre mais evidente para mim é que ele criou um edifício que todo mundo quer conhecer — avaliou Gijs van Hensbergen, autor de uma das biografias de Gaudí. — Ateus, budistas e pessoas de todo o mundo vêm a Barcelona para ver esse edifício milagroso. Vista geral da Basílica da Sagrada Família, obra de Antoni Gaudí, em Barcelona, antes da visita do Papa Leão XIV à Espanha — Foto: Lluis Gene/AFP Mais de um século de história Em 19 de março de 1882, o bispo Urquinaona lançou a pedra fundamental do templo em Barcelona. O projeto, inicialmente concebido pelo arquiteto diocesano Francisco de Paula del Villar, seguia as diretrizes neogóticas da época: janelas ogivais, contrafortes, arcobotantes e uma torre sineira pontiaguda. Divergências sobre o custo dos materiais, no entanto, levaram à substituição de del Villar, em 1883, por um jovem que começava a se destacar em seu tempo. Profundamente ambicioso e devoto católico, Gaudí tinha dois objetivos declarados ao assumir o projeto, segundo o historiador da arte e biógrafo Gijs van Hensbergen: — Criar, antes de tudo, uma Bíblia em pedra, que é a Sagrada Família. Mas também corrigir todos os erros dos estilos arquitetônicos anteriores — disse Hensbergen à BBC. Para isso, Gaudí voltou os olhos a uma das maravilhas do mundo antigo: o Arco de Taq-i Kisra, construído entre os séculos III e VI d.C. na antiga Ctesifonte, região do atual Iraque. A estrutura é um dos primeiros exemplos do chamado arco catenário, que distribui por igual o peso e as tensões de tração da construção. Com esse princípio, projetou as colunas da nave principal, que se ramificam como árvores e sustentam tanto o próprio peso quanto o das 18 torres do edifício. As grandes igrejas neogóticas da época dependiam de arcobotantes, estruturas de pedra projetadas das paredes superiores para níveis mais baixos, para sustentar seus tetos abobadados. Gaudí as considerava “muletas” para edifícios incapazes de suportar seu próprio peso. Sua alternativa exigiu décadas de pesquisa e domínio matemático: tenárias para encontrar as formas mais eficientes. É uma forma extremamente elegante e, ao mesmo tempo, funcional. Ela se sustenta sozinha — explicou à rede britânica Liam Duff, engenheiro estrutural da empresa Arup, hoje envolvido nas obras da basílica. Invenções divinas Para Gaudí, a solução não era apenas técnica. Ele acreditava que a gravidade e o arco catenário eram invenções divinas e, por isso, via na estrutura um motivo recorrente de homenagem a Deus como o grande arquiteto. Em 1914, passou a dedicar-se exclusivamente ao templo e, quase dez anos depois, em 1925, viu concluída a única torre que terminaria em vida: a sineira de São Barnabé, na Fachada da Natividade. No ano seguinte, morreu atropelado enquanto se dirigia à igreja. A obra continuou sob a direção de seu discípulo Domènec Sugranyes, mas passou por sobressaltos. Em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, a Sagrada Família foi vandalizada. Plantas e fotografias foram queimadas, e os modelos de gesso de Gaudí, destruídos. A reconstrução foi possível graças ao material salvo da oficina do arquiteto e ao que havia sido publicado anteriormente em plantas e fotografias. Foi somente a partir de 1939, sob a direção de Francesc de Paula Quintana, que as obras foram retomadas. Cinco gerações já haviam acompanhado o avanço da construção quando, em 2005, a Fachada da Natividade e a cripta foram declaradas Patrimônio Mundial pela Unesco. Em 2010, o Papa Bento XVI (1927-2022) consagrou a basílica para o culto religioso e a elevou à categoria de basílica menor. Sagrada Família de Barcelona é considerada a igreja mais alta do mundo, tendo recentemente tomado o recorde da Catedral de Ulm, na Alemanha — Foto: Lluis Gene/AFP