Obra-prima do arquiteto catalão terá missa celebrada na quarta-feira (10) pelo Papa Leão XIV, marcando a fase final de seus 144 anos de obras Sagrada Família: Obra-prima inacabada do arquiteto catalão ganhou o posto de igreja mais alta do mundo, com a instalação da cruz sobre a Torre de Jesus Cristo, em fevereiro — Foto: MANU QUINTERO / AFP/ 4-6-2026 Principal cartão-postal de Barcelona (e um dos maiores do mundo), a Basílica Sagrada Família poderá ser vista, em breve, livre dos guindastes e andaimes que acompanharam a construção de suas 18 torres por mais de um século. Embora ainda estejam previstas obras até ao menos o início da próxima década, a instalação, em fevereiro, de uma cruz sobre o topo de sua torre central, dedicada a Jesus Cristo, foi encarada com um dos marcos finais dos trabalhos, dando à igreja o título de mais alta do globo, com 172,5 metros. As comemorações da conclusão (ao menos simbólica) dos 144 anos das obras terão seu momento mais importante com a missa solene celebrada pelo Papa Leão XIV, em cerimônia em que abençoará a Torre de Jesus Cristo, marcada para quarta-feira, data do centenário da morte de Antoni Gaudí (1852-1926), arquiteto por trás desses e outros projetos icônicos da cidade, como a Casa Batlló, o Parque Güell e a Casa Milà (La Pedrera). Mais que destacar a edificação ou o gênio por trás dela, a cerimônia celebrará a devoção do arquiteto catalão à fé católica e ao pensamento modernista. Ao assumir a Sagrada Família, em 1883, um ano após o arquiteto Francisco de Paula del Villar iniciar a construção, Gaudí alterou radicalmente o projeto neogótico original, transformando a igreja no que seria a síntese mais perfeita das paixões que guiaram sua obra: a arquitetura, natureza e religião. Interior da nave da igreja, com sua abóbada hiperboloide: inspiração na natureza — Foto: Thomas COEX / AFP O interior da nave, com sua abóbada hiperboloide, traz da natureza a inspiração das árvores e das florestas, com os pilares em formas de troncos encimados por estruturas como galhos, fechando o teto como a junção das copas. A observação dos fenômenos naturais guiavam não só a estética como a prática, uma vez que preferia fazer seus projetos em três dimensões à planificação dos desenhos. No Museu da Sagrada Família, é possível ver algumas de suas maquetes remanescentes — parte delas foi destruída em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, quando a igreja foi vandalizada — e o uso de modelos tridimensionais invertidos, no qual a força da gravidade moldava as estruturas que seriam erguidas em sentido oposto. Com correntes penduradas pelas extremidades, Gaudí observava as possibilidades do arco parabólico catenário (que distribui por igual o peso e as tensões de tração da construção), até então utilizado para edificações mais simples, como pontes suspensas, em seus projetos de maior escala. Antoni Gaudí aos 26 anos: catalão assumiu a construção em 1883, transformando o templo em síntese de suas paixões: arquitetura, natureza e religião — Foto: Divulgação Quase um século e meio depois de seu início, a obra-prima de Gaudí nos chega como prova da persistência não só das técnicas e materiais, mas da crença em um sonho que só poderia ser inteiramente testemunhado pelas gerações que sucederiam seu autor. Dedicado inteiramente ao projeto desde 1914, o arquiteto chegou a ver a obra concluída até o campanário dedicado ao apóstolo Barnabé, em 1925. No ano seguinte, aos 73 anos, foi atingido por um bonde ao atravessar a Gran Via de les Corts Catalanes, morrendo três dias depois (pelo aspecto descuidado das roupas e por não portar documentos, apenas itens como o livro dos Evangelhos e um rosário, chegou a ser internado como um sem-teto). Vivendo seus últimos anos como um católico fervoroso, o “Arquiteto de Deus” pode virar santo, tendo seu processo de beatificação em curso, após ter sido reconhecido como “Venerável” pelo Papa Francisco, em abril de 2025.