Admiradores e teólogos querem que o arquiteto vire santo da Igreja Católica Foto do arquiteto é exibido durante uma cerimônia que marcou o centenário da conclusão da Torre Bernabé da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, ​​em 30 de novembro de 2025 — Foto: AFP O arquiteto Antoni Gaudí, responsável por obras icônicas como a Sagrada Família e o Parque Güell, será homenageado pelo papa Leão XIV na próxima quarta-feira, durante uma missa na Basílica da Sagrada Família, em Barcelona. A celebração, realizada na quarta-feira (10), quando se completam 100 anos da morte de Gaudí, reforça o reconhecimento da Igreja Católica ao modernista catalão, declarado "venerável" pelo Vaticano no ano passado, etapa que antecede uma possível beatificação. Quase cinco milhões de pessoas visitaram no ano passado, mediante ingresso, a basílica da Sagrada Família, o monumento pago mais visitado da Espanha. Além da igreja, outras obras de Gaudí também estão entre as atrações mais procuradas da cidade. Para Xavier Villanueva, arquiteto-diretor da colorida Casa Batlló, que recebeu quase dois milhões de visitantes em 2024, Gaudí era um gênio. — Ele sabia tocar as pessoas. Entrar em uma obra dele nunca deixa ninguém indiferente — afirma. Dedicado então à sua grande criação, a Sagrada Família, o arquiteto faleceu em 10 de junho de 1926, aos 73 anos, dias após ser atropelado por um bonde quando se dirigia a uma igreja para rezar. Pessoas assistem a um espetáculo de luzes projetado na fachada da Basílica da Sagrada Família — Foto: AFP Luta por beatificação de Guadí Nascido em 1852 em uma família católica de caldeireiros do sul da Catalunha, o arquiteto tornou-se um dos mais requisitados da Barcelona de sua época. Importantes burgueses e empresários logo passaram a encomendar projetos àquele jovem de temperamento forte e amante da natureza, que já havia chamado atenção durante seus estudos universitários. Pré-venda do Rock in Rio para todos os dias esgota em menos de 2 horas: 'Mais rápida da história' Mas uma série de mortes de pessoas próximas em uma família já profundamente marcada por falecimentos prematuros levou Guadí — conhecido por seu compromisso com o trabalho, a fé e o catalanismo— a realizar um jejum rigoroso em 1894. — Não é que Gaudí fosse um bon vivant, mas ainda vivia interiormente ligado a coisas muito humanas, como a vaidade e a ambição. Então, naquele momento, ele começou (...) a colocar seu próprio eu depois de Deus — explica Armand Puig Tàrrech, sacerdote e teólogo que participou da elaboração do documento de 1.700 páginas entregue ao Vaticano para solicitar a beatificação do arquiteto. Sua fé saiu fortalecida dessa crise e, a partir de então, Gaudí adotou um estilo de vida austero, quase místico, no qual alguns seguidores acreditaram reconhecer características próprias de um santo. — Se você observa sua trajetória, vê que é um homem de Deus — disse José Manuel Almuzara, que em 1992 fundou, junto com outros quatro companheiros, a Associação Pró-Beatificação de Antoni Gaudí. Desde então, o grupo se dedicou a divulgar a vida e a obra do arquiteto, além de reunir testemunhos de pessoas que afirmam ter recorrido a ele em momentos de dificuldade. Atualmente, a comissão médica do Vaticano analisa a cura de uma criança doente cuja família invocou o arquiteto catalão. O caso pode ser reconhecido como milagre, requisito necessário para sua beatificação. — Nossa missão não era ter associados, mas pessoas que rezassem a Gaudí (...), que descobrissem Gaudí: não apenas o arquiteto genial, mas também um cristão virtuoso — explica Almuzara. Com um temperamento difícil que jamais conseguiu dominar completamente, Gaudí, que permaneceu solteiro durante toda a vida, detestava bajuladores e até evitava posar para fotografias, segundo relatam seus biógrafos. Isso contrasta fortemente com os milhões de pessoas que visitam suas obras todos os anos, transformando seu nome em um poderoso atrativo do turismo de massa em Barcelona. — Quando existe uma marca, sempre há usos oficiais e depois usos não oficiais que tentam se aproveitar dela. E isso também gera muita distorção — alerta Galdric Santana, professor da Escola de Arquitetura da Universidade Politécnica da Catalunha e comissário do Ano Gaudí. Em 10 de junho, todas as atenções voltarão a se concentrar em sua obra mais famosa, quando o papa Leão XIV abençoar a Torre de Jesus Cristo, que com 172,5 m de altura, transformou há alguns meses a Sagrada Família na igreja mais alta do mundo. — O milagre mais evidente para mim é que ele criou um edifício que todos querem conhecer. Ateus, budistas, pessoas do mundo inteiro vêm a Barcelona para ver esse edifício milagroso — avalia Gijs van Hensbergen, autor de uma de suas biografias.