Pontífice visita templo projetado por Antoni Gaudí exatamente 100 anos após a morte do arquiteto; estrutura central elevou a basílica a 172,5 metros de altura Vista geral da Basílica da Sagrada Família, obra de Antoni Gaudí, em Barcelona, antes da visita do Papa Leão XIV à Espanha — Foto: Lluis Gene/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/06/2026 - 15:34 Papa Leão XIV abençoa Sagrada Família no centenário de Gaudí A Sagrada Família, projetada por Antoni Gaudí, se destaca como a igreja mais alta do mundo com 172,5 metros, simbolizando uma "Bíblia em pedra". O Papa Leão XIV visita o templo no centenário da morte de Gaudí, abençoando a Torre de Jesus Cristo. Iniciada em 1882, a obra ainda não foi concluída. Gaudí, um devoto católico, usou arquitetura inovadora para homenagear Deus. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em junho de 1926, um homem idoso foi atropelado por um bonde ao atravessar uma rua de Barcelona — e, vestido com roupas consideradas “desalinhadas”, morreu dias depois em um hospital para indigentes. Era, no entanto, Antoni Gaudí, o arquiteto que havia dedicado os últimos doze anos de vida exclusivamente a uma obra: a Sagrada Família. Exatos 100 anos depois de sua morte, nesta quarta-feira, o Papa Leão XIV celebra uma missa na basílica e abençoa a Torre de Jesus Cristo, estrutura que transformou o templo na igreja mais alta do mundo. A história da Sagrada Família, porém, começa antes de Gaudí. Em 19 de março de 1882, o bispo Urquinaona lançou a pedra fundamental do templo em Barcelona. O projeto, inicialmente concebido pelo arquiteto diocesano Francisco de Paula del Villar, seguia as diretrizes neogóticas da época: janelas ogivais, contrafortes, arcobotantes e uma torre sineira pontiaguda. Divergências sobre o custo dos materiais, no entanto, levaram à substituição de del Villar, em 1883, por um jovem que começava a se destacar em seu tempo: Antoni Gaudí. Profundamente ambicioso e devoto católico, ao assumir o projeto, Gaudí tinha dois objetivos declarados, segundo o historiador da arte e biógrafo Gijs van Hensbergen: — Criar, antes de tudo, uma Bíblia em pedra, que é a Sagrada Família. Mas também corrigir todos os erros dos estilos arquitetônicos anteriores — disse ele à BBC. Bandeira da Catalunha é exibida na fachada da Sagrada Família durante a Diada, a festa nacional catalã, em Barcelona, em 2019 — Foto: Carolina Cabral Fernandez/Bloomberg Para isso, Gaudí voltou os olhos a uma das maravilhas do mundo antigo: o Arco de Taq-i Kisra, construído entre os séculos III e VI d.C. na antiga Ctesifonte, região do atual Iraque. A estrutura é um dos primeiros exemplos do chamado arco catenário, que distribui por igual o peso e as tensões de tração da construção. Com esse princípio, projetou as colunas da nave principal, que se ramificam como árvores e sustentam tanto o próprio peso quanto o das 18 torres do edifício. As grandes igrejas neogóticas da época dependiam de arcobotantes, estruturas de pedra projetadas das paredes superiores para níveis mais baixos, para sustentar seus tetos abobadados. Gaudí as considerava “muletas” para edifícios incapazes de suportar seu próprio peso. Sua alternativa exigiu décadas de pesquisa e domínio matemático: — Ele usou as catenárias para encontrar as formas mais eficientes. É uma forma extremamente elegante e, ao mesmo tempo, funcional. Ela se sustenta sozinha — explicou à rede britânica Liam Duff, engenheiro estrutural da empresa Arup, hoje envolvido nas obras da basílica. Para Gaudí, a solução não era apenas técnica. Ele acreditava que a gravidade e o arco catenário eram invenções divinas e, por isso, via na estrutura um motivo recorrente de homenagem a Deus como o grande arquiteto. Em 1914, passou a dedicar-se exclusivamente ao templo e, quase dez anos depois, em 1925, viu concluída a única torre que terminaria em vida: a sineira de São Barnabé, na Fachada da Natividade. No ano seguinte, morreu atropelado enquanto se dirigia a uma igreja. A obra continuou sob a direção de seu discípulo Domènec Sugranyes, mas passou por sobressaltos. Em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, a Sagrada Família foi vandalizada. Plantas e fotografias foram queimadas, e os modelos de gesso de Gaudí, destruídos. A reconstrução foi possível graças ao material salvo da oficina do arquiteto e ao que havia sido publicado anteriormente em plantas e fotografias. Obras retomadas Foi somente a partir de 1939, sob a direção de Francesc de Paula Quintana, que as obras foram retomadas. Cinco gerações já haviam acompanhado o avanço da construção quando, em 2005, a Fachada da Natividade e a cripta foram declaradas Patrimônio Mundial pela Unesco. Em 2010, o Papa Bento XVI (1927-2022) consagrou a basílica para o culto religioso e a elevou à categoria de basílica menor. Em dezembro de 2021, a Torre da Virgem Maria foi inaugurada com 138 metros de altura. Em 2023, as quatro torres dos Evangelistas foram concluídas, com 135 metros cada. E, em 20 de fevereiro de 2026, a Torre de Jesus Cristo teve seu exterior finalizado com a instalação do braço superior da cruz: com 172,5 metros, a estrutura garantiu à Sagrada Família o título de igreja mais alta do mundo. A basílica recebeu quase cinco milhões de visitantes no ano passado. Sagrada Família de Barcelona é considerada a igreja mais alta do mundo, tendo recentemente tomado o recorde da Catedral de Ulm, na Alemanha — Foto: Lluis Gene/AFP A obra, no entanto, ainda não está concluída. A Fachada da Glória — a principal fachada frontal do templo — ainda precisa ser finalizada, entre outros elementos. A expectativa é que a Sagrada Família seja encerrada em cerca de dez anos. Enquanto isso, drones e sistemas de inteligência artificial já substituíram os alpinistas que antes levavam dois anos para inspecionar toda a basílica em busca de fissuras. — Quando tivermos a IA totalmente treinada, será possível escanear toda a basílica em apenas um mês — afirmou Fernando Villa, diretor de tecnologia e inovação da Sagrada Família. Nesta quarta, Leão XIV chega ao templo no centenário exato da morte de Gaudí. O Pontífice, que chegou a Barcelona na terça-feira após dias em Madri — onde discursou no Parlamento espanhol, reuniu-se com vítimas de abusos cometidos por membros do clero e celebrou uma missa diante de 1,5 milhão de pessoas —, abençoará a Torre de Jesus Cristo. A vida de Gaudí Nascido em 1852 em uma família católica de caldeireiros no sul da Catalunha, Gaudí tornou-se um dos arquitetos mais requisitados da Barcelona de sua época. Importantes burgueses e empresários logo passaram a encomendar projetos ao jovem de temperamento forte e fascinado pela natureza, que já havia chamado atenção durante seus anos de universidade. Mas uma série de mortes de pessoas próximas levou o arquiteto a realizar um jejum extremo em 1894. Sua fé saiu fortalecida daquela crise e, a partir de então, Gaudí adotou um estilo de vida austero, quase místico, no qual alguns seguidores acreditaram reconhecer traços de santidade. Hoje, seu processo de canonização avança no Vaticano. — Não é que Gaudí fosse um bon vivant, mas ainda vivia ligado a coisas muito humanas, como a vaidade e a ambição. E então, naquele momento, ele começa a colocar o próprio eu depois de Deus — disse Armand Puig Tàrrech, sacerdote e teólogo que participou da elaboração do documento de 1,7 mil páginas entregue ao Vaticano para solicitar sua beatificação. Dono de um temperamento difícil que nunca conseguiu domar, Gaudí, que permaneceu solteiro durante toda a vida, detestava bajuladores e até mesmo se recusava a posar para fotografias, segundo relatam seus biógrafos — um contraste enorme com os milhões de pessoas que visitam suas obras todos os anos e transformaram seu nome em uma marca altamente lucrativa para o turismo de massa em Barcelona. — O milagre mais evidente para mim é que ele criou um edifício que todo mundo quer conhecer — avaliou Gijs van Hensbergen, autor de uma das biografias de Gaudí. — Ateus, budistas, pessoas de todo o mundo vêm a Barcelona para ver esse edifício milagroso. (Com AFP)
‘Bíblia em pedra’ de Gaudí: Conheça a história da Sagrada Família, igreja mais alta do mundo e onde Papa celebra missa hoje
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