Você deve estar lendo este texto por causa das já antológicas cenas com lasers projetados pela vagina das dançarinas em "Confessions II - The Film", o novo curta-metragem de Madonna.
É bem-humorada e apropriada a sugestão de misticismo, ficção científica e poder, em especial neste momento em que as mulheres, nos Estados Unidos, no Brasil e em muitos outros países, têm visto retrocessos em seus direitos reprodutivos e a misoginia encharcar o noticiário com sangue.
Falamos, afinal, da mesma Madonna que preferiu assumir o risco de ser presa pela polícia de Toronto a alterar a performance de "Like a Virgin", na turnê Blond Ambition, em 1990, em que ela simulava masturbação sobre uma cama —na mesma série de shows, vestiu o corset cônico de Jean-Paul Gaultier, quase como uma arma retrofuturista.
Os lasers são apenas o início. Se alguém ainda tinha alguma dúvida de que Madonna está numa fase revisionista —por mais contraintuitivo que isso possa soar—, dificilmente terá dúvida após ver o filme dirigido pela dupla Torso, pseudônimo de David Toro e Solomon Chase.
A pontífice do pop tem se dedicado nos últimos anos a tratar o próprio passado como matéria-prima. Não me refiro ao típico movimento de incluir versões repaginadas de sucessos de outrora na setlist de uma turnê, mas a algo mais engenhoso. Madonna está fazendo de sua mitologia, pela segunda vez consecutiva, o vetor de sua nova era. Madonna é a DJ de seu próprio passado.












