Michele Montenegro não possui registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), apesar de ser bacharel em Direito. Ela está presa acusada de uma fraude milionária em obras de arte Michele Coelho Montenegro, a falsa advogada presa sob suspeita de fraude milionária na venda de obras de arte — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/06/2026 - 21:37 "Falsa Advogada é Presa por Fraude Milionária com Imóveis e Obras de Arte no Rio" Michele Montenegro, bacharel em Direito sem registro na OAB, foi presa por fraude milionária envolvendo imóveis e obras de arte no Rio. Dois casais foram vítimas de seu golpe ao acreditarem comprar um apartamento em Copacabana. Michele se apresentou falsamente como advogada e gestora de bens, gerando contratos fraudulentos. A situação resultou em ameaças e um despejo judicial traumático para os envolvidos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “Estamos no lugar certo e na hora certa.” Esse foi o ditado que Paulo e Júlia, nomes fictícios, acreditavam estar vivendo às vésperas do casamento. O casal buscava o primeiro apartamento e conheceu Michele Montenegro por acaso, durante um serviço que Paulo prestou a ela. Mia Montenegro se apresentou como advogada e gestora dos imóveis de sua família e disse ter um apartamento em Copacabana, Zona Sul do Rio, que atendia a todos os desejos do casal. Os recém-casados, viram o sonho se tornar um pesadelo ao perceberam que tinham sido vítimas de um golpe após terem gastado suas economias nas parcelas e obras no imóvel. Michele Montenegro não possui registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), apesar de ser bacharel em Direito.Ela chegou a ter a carteira de estagiária, mas o cadastro está cancelado. A mulher foi presa na semana passada, acusada de se apresentar falsamente como advogada a outras pessoas e de ser mentora de uma fraude milionária envolvendo a venda de obras de arte no Rio. A aquisição do apartamento foi fechada em junho de 2023 por R$ 800 mil, que seriam pagos em parcelas, além de R$ 29 mil pagos como sinal do negócio. Segundo a defesa de Paulo e Júlia, Michele Montenegro se aproveitou da inocência deles e redigiu um contrato que misturava termos de locação e venda, criando uma “aberração jurídica” mas que só beneficiaria a ela própria. Em uma mensagem enviada a eles no dia da assinatura da escritura, Michele escreveu: “O nosso contrato deu trabalho! Muito diferente”. — Ela falava que estava fazendo um negócio como se fosse para os filhos dela. Disse que o apartamento se pagaria se eu o alugasse por temporada, por exemplo. Ainda nos apresentou ao síndico e aos funcionários como os novos proprietários do local — conta Paulo. Com o contrato firmado, o casal decidiu fazer uma obra antes de se mudar para o apartamento. Muitos dos presentes de casamento foram destinados à revitalização do imóvel, como materiais de construção, tintas e móveis. Acreditando que estavam investindo em na casa própria, eles trocaram parte da tubulação e dos pisos, além de instalaram móveis planejados, gastando quase R$ 57 mil na reforma. Alguns meses depois, Paulo e Júlia perceberam que o lugar era maior do que precisavam e decidiram se mudar e aceitar uma das ideias de Michele: alugar o imóvel para ajudar a pagar as prestações mensais. — Ela descobriu que estávamos prestes a alugar o imóvel e começou a nos ameaçar. Dizia que teria de analisar a documentação dos interessados e que nós não tínhamos autonomia para isso — detalha Paulo. Antes disso, a própria Michele tentou ajudar ao casal a alugar o apartamento durante o réveillon em Copacabana: “Natal e réveillon, pacote de 10 dias, da para pedir mais” disse ela ao saber os valores anunciados pelo local. “Chama essa menina e veja se alinham pro réveillon. Alinha tudo diretamente você. Para não triangular nenhuma relação sobre a tua casa. Vou indicar tudo que me aparecer para tua avaliação, mas obviamente não vou administrar tua casa. Tuas decisões.”, escreveu Michele à Júlia. Acreditando que o contrato da casa própria era válido, eles alugaram o apartamento de Copacabana para Alice e Gustavo, nomes fictícios. O casal e a filha de 5 anos se mudaram para o imóvel, mas os problemas começaram logo na primeira semana. — A Michele apareceu lá de forma agressiva, tentando expulsar a gente do apartamento. Em tom racista, nos tratou como inferiores e chegou a dizer que tínhamos cara de bandidos. Mas conversamos com o casal que nos alugou o imóvel e vimos que eles tinham o contrato correto — explica Gustavo, ao contar por que decidiram permanecer no local. Gustavo conta que os meses seguintes se tornaram um tormento. Amigos receberam ligações pedindo que transmitissem o recado de que eles precisavam deixar o imóvel, e um homem foi ao prédio afirmando que seria melhor eles saírem por bem ou por mal, já que Michele Montenegro teria “o Comando Vermelho e a polícia nas mãos”. Seis meses depois de se mudarem, eles foram surpreendidos por uma ordem judicial de despejo. Michele Montenegro conseguiu uma liminar alegando que o primeiro casal, Paulo e Júlia, havia sublocado o imóvel para Alice e Gustavo, o que teria ferido o contrato de locação. — Foi traumatizante. Não imaginávamos que isso iria acontecer. Não fazia sentido aquele despejo. Perdemos 80% de nossas coisas, que foram levadas para um depósito judicial, e tivemos de ficar temporariamente na casa de um parente — lembra Gustavo. Advogado dos dois casais, Thiago Pereira afirma que, na verdade, o apartamento nunca pertenceu a Michele. O imóvel está em nome de uma administradora que tem como sócio o tio da mulher, o banqueiro Antonio Carlos de Oliveira Coelho, dono do Banco Vega. “Michele se aproximou do casal (Paulo e Júlia) de forma a conquistar sua confiança, apresentando-se como pessoa proba, que seria advogada e proprietária do imóvel negociado. Todavia, a ré não é advogada, tampouco proprietária do imóvel”, escreve o advogado na ação que pede a devolução dos recursos pagos e investidos no apartamento. Ele também ressalta condenações criminais de Mia Montenegro: “Pode-se identificar um padrão comportamental da Michele que vem se reproduzindo por anos a fio, diante da prática das condutas criminosas de estelionato, falsificação de documento público, uso de documento falso e falsidade ideológica”, completa o advogado. O GLOBO não conseguiu contato com a defesa de Michele, que continua presa preventivamente por decisão da Justiça do Rio.