Consequências do colapso econômico têm afetado tanto os cidadãos pró-governo quanto os opositores; para aqueles que desejavam uma mudança de regime, a decepção é palpável Mulher observa colunas de fumaça subindo de um depósito de petróleo após ataques noturnos americanos e israelenses em Teerã — Foto: Arash Khamooshi/Polaris para o New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/06/2026 - 17:09 Irã Enfrenta Crise Econômica e Desilusão em Meio a Conflitos Com economia em colapso e infraestrutura devastada pela guerra, os iranianos enfrentam desespero e desilusão. Ataques de Israel e EUA, inicialmente vistos como possibilidade de mudança de regime, resultaram em destruição e morte de 1.700 civis. A economia sofre com alta de preços e escassez de produtos, enquanto a população, frustrada com a guerra e o governo, anseia por uma solução diplomática. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando Israel e os Estados Unidos atacaram o Irã no final de fevereiro, alguns opositores iranianos da República Islâmica esperavam que isso pusesse fim a décadas de regime teocrático que consideravam opressivo. Agora, após ataques devastadores e em meio a um cessar-fogo instável, essas esperanças foram frustradas. Sentimentos de desilusão e desespero tomaram o seu lugar, impulsionados por um número estimado de 1.700 civis mortos, destruição em larga escala e um colapso econômico que tornou o cotidiano uma luta. O cessar-fogo trouxe algum alívio em relação aos bombardeios, mas, no domingo, a situação parecia ainda mais precária depois que o Irã lançou uma nova série de mísseis balísticos contra Israel. Autoridades iranianas citaram ataques israelenses no Líbano, mas a ofensiva aumentou o temor de uma retaliação israelense contra o Irã. Além das escaramuças militares, uma guerra econômica fez com que os preços de produtos básicos disparassem. A paralisação de setores industriais essenciais e o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz — uma rota comercial fundamental para a exportação mais valiosa do Irã, o petróleo — levaram a economia, já fragilizada, a uma queda livre. As negociações de paz intermitentes, juntamente com as declarações dos EUA de que a guerra acabou quando não acabou, deixaram tanto apoiadores quanto opositores do governo confusos e ansiosos, de acordo com entrevistas por aplicativos de voz com mais de 20 iranianos em Teerã, Isfahan, Ahvaz e Mashhad nos dias que antecederam os ataques de domingo. — Estou com raiva. Me sinto sozinha — disse Kimia, uma designer de 25 anos, em entrevista ao New York Times, de Teerã. — Não importamos para o mundo; somos vistos apenas como ferramentas de guerra e negociação, quando somos seres humanos. Para alguns daqueles que anseiam desesperadamente por uma mudança de regime, saber que Israel e os Estados Unidos haviam planejado inicialmente instalar um ex-presidente linha-dura, Mahmoud Ahmadinejad, como o novo governante do país foi uma dolorosa humilhação. Em entrevistas e publicações nas redes sociais, vários disseram que a divulgação do plano pelo New York Times os fez sentir como meros espectadores em um jogo geopolítico com impacto direto em suas vidas. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por muitos anos, foi morto em ataques no primeiro dia da guerra, em fevereiro, e desde então foi substituído por seu filho, Mojtaba Khamenei. — Para que tudo isso? — perguntou Amirali, um engenheiro de 62 anos de Teerã, em entrevista. — Bombardearam e destruíram nosso país, nossos aeroportos, estradas e fábricas em nome da mudança de regime para poderem colocar Ahmadinejad no poder? Isso mostra que o objetivo nunca foi tornar o Irã melhor ou livre. Assim como todos os iranianos entrevistados, Kimia e Amirali pediram para serem identificados apenas por seus primeiros nomes para evitar possíveis represálias. Tem sido um ano tumultuado para os iranianos. Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã pela primeira vez em junho de 2025, em uma guerra curta, e depois atacaram novamente a partir do final de fevereiro, atingindo fábricas, aeroportos, portos, pontes, universidades e bairros residenciais densamente povoados. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que esta última guerra tinha como objetivo criar as condições para derrubar o regime e garantir que o Irã jamais conseguisse uma arma nuclear. Quadro sombrio Neste momento, as negociações para pôr fim ao conflito parecem estar paralisadas, sendo um dos principais pontos de discórdia o Estreito de Ormuz. O Irã suspendeu o serviço de internet para o público em geral desde o início da guerra até o final de maio, alegando razões de segurança nacional. Agora que mais pessoas voltaram a usar as redes sociais, muitas delas conseguem se comunicar com o mundo e entre si. Suas mensagens pintam um quadro sombrio. Homem caminha entre os escombros de um prédio na Universidade Shahid Beheshti, em Teerã, após o local ter sido alvo de ataques aéreos dos EUA e de Israel, em abril — Foto: Arash Khamooshi/Polaris para o New York Times Um professor aposentado de Teerã, crítico do governo, afirmou em entrevista que as pessoas simplesmente desistiram da mudança política e estavam focadas em sobreviver no dia a dia. O gerente de uma fábrica de garrafas plásticas perto de Mashhad disse que a produção foi paralisada e todos os funcionários foram colocados em licença não remunerada devido à falta de matéria-prima após os ataques aéreos israelenses à indústria petroquímica iraniana. Um médico em Isfahan relatou que as farmácias estavam racionando medicamentos e que o Ministério da Saúde havia aconselhado os médicos a prescreverem apenas medicamentos essenciais devido à escassez. Amin Afshar, chefe da associação de hemofílicos do Irã, declarou recentemente à mídia iraniana que o país não possui reservas do medicamento necessário para pessoas com o distúrbio hemorrágico e que a importação de remédios tornou-se muito difícil. As redes sociais no Irã estão repletas de tragédias. Uma história que se espalhou amplamente é a de Hamed Mirzaei, que publicou ter perdido 12 membros de sua família em um ataque aéreo israelense em março na Praça Resalat, uma área residencial densamente povoada em Teerã. Mirzaei escreveu que é o único sobrevivente do ataque que matou sua esposa, com quem era casado há um ano, seus pais, avós, tio, primos e outros parentes, de acordo com suas postagens no Instagram e reportagens da mídia iraniana. "Até o último dia da minha vida, não deixarei que seus nomes sejam esquecidos, falarei de cada um de vocês. Não deixarei que morram em vão", escreveu Mirzaei em uma postagem na qual compartilhou fotos de seu casamento. Muitos iranianos — mesmo aqueles que não apoiam o regime teocrático — dizem que se opõem à guerra e já sofreram o suficiente. Eles estão cada vez mais considerando as negociações diplomáticas como um meio de estabilizar o país e a economia. — Sou definitivamente a favor das negociações neste momento, dadas as circunstâncias — declarou Lida, uma especialista em meio ambiente de 44 anos em Teerã, que se opôs ao governo. — Perdemos muitas vidas e grande parte da nossa infraestrutura. Perdemos muitos recursos humanos e, para ser honesta, não acho que a guerra seja do nosso interesse. Analistas dizem que os grandes ataques aéreos levaram muitos iranianos que inicialmente apoiaram a guerra a mudar de ideia. — Este é um momento em que os iranianos estão avaliando a realidade e calculando o que funcionou e o que não funcionou — afirmou Ellie Geranmayeh, pesquisadora sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores. — Aceitar a resiliência do regime, apesar de todas as esperanças, é um momento muito amargo para aqueles que se opõem a ele. Isso, sem dúvida, tornou o regime mais poderoso do que era. As declarações contraditórias de Trump sobre o Irã inflamaram ainda mais a confusão e a fúria, pontuaram analistas e diversas pessoas entrevistadas. Inicialmente, o presidente americano afirmou que a ajuda estava a caminho para os manifestantes iranianos, depois ameaçou aniquilar a antiga civilização do Irã. Na quinta-feira, em declarações à imprensa, Trump disse que se sentiria "honrado" em se encontrar com o novo líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, caso um acordo fosse firmado com Teerã. Esse comentário virou notícia instantânea no Irã, e as redes sociais foram inundadas de comentários e piadas, algumas fazendo referência ao fato de o aiatolá não ter aparecido em público desde o início da guerra. "Bem, 90 milhões de pessoas no Irã também querem vê-lo, mas é uma pena que não tenham essa sorte. E agora você está chegando atrasado e quer furar a fila?”, escreveu Ahmad Mosaddegh nas redes sociais. Mas, à medida que a guerra se arrasta, alguns apoiadores do governo também estão perdendo a paciência com seus líderes. Mehdi, um funcionário público de 52 anos, contou em entrevista que participou de manifestações pró-governo com a esposa e os filhos. Mas disse que seu salário acaba no meio do mês e que não tem dinheiro para comprar carne bovina ou frango para alimentar a família. — Comprei alguns mantimentos a crédito em uma mercearia do bairro; o dono me disse para pagar quando recebesse meu salário — destacou Mehdi. Quando ele voltou para pagar, “a conta tinha dobrado porque os preços de tudo subiram". — Todo mundo está revoltado com a economia e, se o governo não resolver a situação, haverá problemas. Hamed, um conservador pró-governo, disse em entrevista que “o aumento dos preços não faz distinção entre apoiadores e opositores do governo; está afetando a todos nós.” O centro oficial de estatísticas do Irã anunciou na semana passada que a inflação disparou em comparação com o mesmo período do ano passado. O relatório apontou que o preço do óleo de cozinha aumentou 430%, o dos ovos 345%, o do arroz 287% e o do leite 139%. — Ninguém está pensando neles ou levando em consideração suas opiniões — ressaltou Sanam Vakil, diretora para o Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, acrescentando que os iranianos com quem ela conversou dentro do país não paravam de perguntar o que aconteceria com eles. — Eles são apenas vítimas desse conflito que está além de sua influência e controle.