No dia a dia do mercado financeiro, a esperança pode ser uma arma de destruição (de patrimônios) em massa. Por isso, a lógica da “fezinha” nas Loterias ou a que leva alguém a apostar num placar final de um jogo de futebol não podem ser transpostas para a rotina das bolsas de valores. Ao menos, não deveriam ser. Quem ganha dinheiro no mercado financeiro não se move por esperança, e sim por conhecimentos técnicos e informações que não chegam para a maior parte dos seus concorrentes nesse tabuleiro capital. E o pequeno investidor que se lança apenas com o conhecimento técnico básico, mas grande esperança (e uma dose perigosa de destemor) pode mergulhar num abismo. É essa esperança que divide as jornadas de Wagner* e de Mauro*. Atualmente afastados das operações no mercado financeiro, os dois uma vez foram “day traders”, como se chamam os investidores que recorrem a estratégias de alocação que consistem em comprar e vender ativos no mesmo dia. Para o primeiro, um professor da rede pública que cresceu nas favelas do Rio de Janeiro, o day trade pareceu a chance de conquistar por conta própria as condições materiais que o nascimento lhe negara. Para o outro, economista que passou boa parte da vida nos bastidores de grandes instituições do mercado financeiro, o day trade era o palco para testar, por conta própria, o conhecimento que aplicara a vida toda em favor do dinheiro de outros. Ambos olharam para o abismo. Um deles quase foi consumido por ele; o outro aprendeu a dançar à sua beira. Entre o simulado e o real Hoje com 45 anos, Wagner teve uma juventude marcada pelo som de tiros e o sonho frustrado de resgatar a mãe do ciclo de violência. Com 25 anos e apenas dois anos após ter passado em concurso público, sua mãe morreu. O tempo e o dinheiro não foram suficientes para que o professor tirasse a família da favela. No ano seguinte à perda da mãe, o pai de Wagner sumiu. Dependente de álcool, deixou para trás apenas dívidas e a filha mais nova, ainda menor de idade, sob os cuidados do mais velho. Responsável legal pela irmã, em 2007, o professor começou a investir em ações na bolsa brasileira. E no começo foi apenas isso mesmo: investimento. Mas, em 2013, Wagner descobriu o day trade e um universo de pessoas que diziam viver da renda dessas operações. Wagner achou que tinha encontrado um atalho para a vida que sonhara. Já Mauro, que hoje passa dos 50 anos, tinha o oposto da urgência de Wagner. Começou como office-boy em um banco e construiu uma carreira nos bastidores de mesas de operações e tesourarias de grandes instituições financeiras. Nunca fora arrojado nos investimentos pessoais, preferindo a solidez da renda fixa e um portfólio de ativos conservador. Foi só em 2019, com tempo livre e dono de uma empresa já consolidada, que a curiosidade o venceu. Mauro começou a operar com day trade em uma conta "demo", um ambiente asséptico em que investidores que estão aprendendo podem simular operações sem medo da contaminação do processo com perdas reais. Mas tudo acontece como se fosse na sessão em tempo real. “Com essa dinâmica da conta demo, você fica milionário em uma semana”, diz o empresário entre risos. “Mas quando é para valer, o buraco é mais embaixo”. Essa simulação do day trade, Mauro conclui, é útil para ambientar o investidor à plataforma, mas falha em transmitir o peso da responsabilidade e da realidade: o medo de perder dinheiro transforma a rotina de operações de alto risco em algo visceral. E ambos caíram nessas armadilhas das simulações. Mauro, depois de seis meses de euforia na conta demo, foi para a conta real com R$ 20 mil e um otimismo ingênuo. “Deu tudo muito errado”, ele sentencia. Em menos de seis meses, os R$ 20 mil viraram uma perda de R$ 120 mil. Para Wagner, a ruína foi mais grave: "Eu tinha uma expectativa de ganho rápido. Tinha que ser rápido, tinha que ser muito. O fato de poder fazer muito dinheiro em poucos minutos me fez ver o day trade como um ‘caixa eletrônico virtual’ que poderia alimentar meus sonhos de riqueza. Era uma injeção de adrenalina a cada operação. E eu precisava de cada vez mais!" Espiral do vício A espiral do vício em day trade em que o professor mergulhou lhe consumiu mais de R$ 650 mil em dez anos, três carros, bicicleta, projetor multimídia e até livros vendidos e convertidos em dinheiro para alimentar as operações. Mais que isso, a dependência de Wagner afastou dele amigos e pessoas amadas. "Eu repetidamente investia todo o salário no day trade e perdia tudo num dia só. Às vezes, era só questão de minutos, de uma operação, para eu não ter mais nada na conta", lembra. Contas básicas, como aluguel e luz, deixaram de ser pagas. Dependendo da ajuda dos poucos amigos que lhe restaram, Wagner oscilou entre os pedidos de ajuda e o isolamento, em um profundo sofrimento “que corroeram minha dignidade e vontade de viver.” A diferença crucial entre Mauro e Wagner não está apenas na dimensão de suas perdas com o day trade, mas na profundidade até qual cada um mergulhou nesse mercado. Para Mauro, o prejuízo foi o custo alto do aprendizado. Ele percebeu que o que lhe faltava não era conhecimento técnico, mas preparo psicológico. Frustrado, criou uma espécie de aversão ao day trade e recuou para uma trincheira mais segura: o swing trade, estratégia de investimento de curto a médio prazo, cujo objetivo é "surfar" uma tendência de alta (ou de baixa) de um ativo, que pode durar dias ou semanas. Diz hoje operar comedidamente, ou seja, com valores “dez vezes menores do que poderia operar” e os quais aceita perder, uma vez que não têm impacto na sua capacidade de pagar as contas e viver a vida. Mauro também alega trabalhar com uma meta simples: fechar o dia positivo, não importa se com três dígitos ou sete reais, o que mitiga os efeitos psicológicos desse jogo. Já o prejuízo inicial, de R$ 120 mil, ele encara como se tivessem sido gastos em um curso para “aprender a operar consigo mesmo.” Para Wagner, não parecia haver recuo. Ele era movido no day trade por um desejo insaciável e dizia para si mesmo que a insistência nessas operações um dia seriam a solução para o problema que havia gerado: dívidas que se amontoavam a centenas de milhares de reais. Só que não para Wagner. Seu prazer no day trade não estava apenas nos ganhos, mas no ato de operar, que ele relata provocar uma descarga de êxtase. Quando tentou automatizar essas operações com robô programado por algoritmo, sentiu-se roubado da melhor parte dessa dinâmica. "Eu já estive em Punta Cana, na beira da piscina em um belo resort, com a praia diante de mim e minha então companheira me chamando para aproveitar. Mas lá estava eu, operando no day trade mais uma vez. Sem tirar a cara da tela." Wagner foi ao fundo do poço e somente após algumas tentativas de adaptação a terapias alternativas e depois de algum tempo com acompanhamento profissional, Wagner diz ter “virado a chave” em seu cérebro. Passou uma década lutando contra o vício nessa jornada marcada por perdas. “Então eu comecei a entender que eu não estava só em busca de dinheiro, que, na verdade, minha dependência era sintoma de um sofrimento maior, de um conjunto de frustrações e traumas…" Wagner diz não fazer mais day trade, mas revela duas recaídas nos últimos anos. O que o ajuda nessa batalha é ter encontrado um “prazer mais sublime”, segundo ele, em compartilhar sua história e tentar ajudar outras pessoas a superar seus vícios ou “tudo que gera o sofrimento e que faz as pessoas mergulharem nessas dinâmicas como uma tábua de salvação”. “Um jovem perto dos 18 anos me abordou no fim de uma palestra um dia para me dizer que achou muito radical eu ter cortado tudo e parado de operar completamente. E eu não estou aqui para demonizar a bolsa. A maioria não se vicia em day trade. Mas muitas pessoas que acreditam ter autocontrole podem cair nessa espiral. E imagine se uma pessoa como esse rapaz, que ganha um salário mínimo, ganha 10%, por exemplo, do seu salário em uma aposta. Pode parecer a solução para todos os problemas dele, mas, na verdade, ele pode estar diante de um abismo de perdas”, reflete Wagner. Um abismo que o professor conhece bem. Tanto o seu mergulho quanto a escalada para sair dele. *Os sobrenomes foram ocultados para preservar as identidades dos entrevistados Volatilidade bolsa oscilação — Foto: Pixabay