No centro da sala de uma casa ampla no Morumbi, zona oeste de São Paulo, o ator João Paulo Lorenzon fica em silêncio por alguns minutos antes de começar o ensaio de seu novo solo, "Nietzsche, do cavalo nada sabemos". Ele tira a camisa, prepara a sonoplastia e entra em cena para em seguida surpreender os convidados da sessão com diversas chicotadas aplicadas no próprio corpo.
As marcas da flagelação logo ficam visíveis em manchas vermelhas no dorso. Não há expressão de dor, mas muita concentração e preparo físico. A intenção da performance é mergulhar nas profundezas da alma humana e refletir sobre violência, destruição, culpa, desejo e reparação.
Um poema escrito por Denise Stoklos inspirou o artista a criar o espetáculo, que vai estrear na programação off do Festival d´Avignon, na França, em julho. Ela enviou o texto após assistir duas vezes a outra peça de Lorenzon, "Quase Infinito", solo em cinco atos em que ele se alimenta da atmosfera de contos do argentino Jorge Luis Borges para refletir sobre as angústias e as dores modernas.
No poema, a atriz, dramaturga e diretora paranaense aborda o episódio que marca o início do colapso mental de Friedrich Nietzsche (1844-1900), ocorrido em Turim, ao ver um cavalo chicoteado pelo cocheiro. O filósofo alemão atirou-se no pescoço do animal e entrou em silêncio profundo.







