O domínio da língua inglesa é um dos nossos definidores de quem está dentro e quem ficou do lado de fora Ônibus de dois andares passa em frente à London Eye, em Londres — Foto: Daniel Leal-Olivas / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você No Brasil, o domínio do inglês funciona como barreira social. Profissionais fluentes chegam a ganhar o dobro, transformando o idioma em ferramenta de exclusão no mercado de trabalho. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Entrei em um táxi no aeroporto de Lisboa com destino ao meu Airbnb no Chiado, bairro metido a besta da região. O taxista brasileiro não reparou no passaporte e danou a falar em inglês como se um turista e a língua da Rainha fossem necessariamente a mesma coisa. Quando se deu conta de que tínhamos as mesmas origens, comemorou: “não aguento mais enrolar a língua para falar com gente enrolada”. Demorei a entender que a reclamação do compatriota era similar à ouvida pelo ex-prefeito Eduardo Paes em uma das suas andanças pelo Rio de Janeiro. Como nos contou em um convescote recente na Universidade de Oxford, o sucesso da campanha de transformação da imagem do Brasil e da cidade tem feito dos cariocas seres fatigados. Ao ponto de ter ouvido de um eleitor uma súplica bem-humorada. O homem pediu ao político a diminuição urgente da chegada dos gringos à cidade porque não aguentava mais ouvir inglês em qualquer esquina. Apesar da legitimidade do pedido do cidadão, em termos quantitativos, o drama dos brasileiros passa longe do sofrimento dos portugueses. Portugal ocupa a sexta posição no EF English Proficiency Index (ranking global de proficiência em inglês) e figura entre os países de alto domínio do idioma, muito à frente da média europeia. Na mesma lista, o Brasil aparece na 75ª posição. Por aqui, só 5% dos compatriotas têm domínio das ferramentas básicas da língua e apenas 1% consegue participar de uma conversa com alguma noção de para onde o papo vai. Mas engana-se quem pensa que os brasileiros estão parados. Eles se viram como podem. O país ocupa a segunda posição no ranking global do Duolingo (aplicativo de aprendizado de línguas), atrás apenas dos EUA. Em 2020, eram 30 milhões de downloads. Hoje, são mais de 70 milhões. O mesmo vale para quem pensa que eles fazem isso pelos turistas. As motivações principais são a carreira e a busca por viver uma vida melhor, com mais conforto. Os estudos de Omar Koshin e André Vieira, pesquisadores das desigualdades, deixam claro como a exigência de inglês fluente opera como um mecanismo de fechamento social no mercado de trabalho. Segundo levantamento recente feito pela consultoria Catho, profissionais fluentes podem ganhar até o dobro de colegas com inglês básico. Para quem tem ensino superior, o diferencial chega a 65%. Para cargos de liderança, os níveis chegam a 90%. Ter um bom nível de inglês não significa apenas ter ou não o domínio de habilidade técnica. Em um país atravessado por profundas desigualdades, esse é mais um dos bens escassos, distribuído de forma profundamente assimétrica, cuja aquisição depende de escolas de qualidade, cursos especializados e viagens ao exterior. Quando o mercado de trabalho oferece boas oportunidades a quem fala inglês (mesmo que o cargo não exija tais habilidades), ele cria uma exclusão antecipatória. De partida, exclui-se a maior parte da população e reservam-se os melhores empregos e salários a quem já os receberia. Entre nós, o domínio da língua inglesa é mais sobre a gestão dessa fronteira do que sobre comunicação. É mais um dos nossos definidores de quem está dentro e quem ficou do lado de fora. É uma forma de gestão de acesso. No Brasil, to be or not to be é mais do que um axioma shakespeariano. É a definição de quem pode ser e estar nos espaços perto das oportunidades.
'To be or not to be'
O domínio da língua inglesa é um dos nossos definidores de quem está dentro e quem ficou do lado de fora












