Saudade do tempo em que só a Igreja dizia o que era pecado e os meses eram organizados pelas folhinhas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Homem se levanta da cama ao amanhecer — Foto: Unsplash RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você No Brasil, o domínio do inglês funciona como barreira social no mercado de trabalho. Profissionais fluentes chegam a ganhar o dobro, aprofundando a desigualdade no país. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Descobri esta semana. Na surdina das redes sociais, as associações das mais variadas bandeiras já dominam toda a paleta de cores primárias e os ciclos de 30 dias impostos pelo calendário gregoriano. Já não se pode sequer começar o mês preocupado apenas com o dia do salário na conta. É preciso saber qual causa abraçar e qual pigmentação mais combina com ela. Abril pede o azul, pelo autismo. Em março, o lilás, pelo comprometimento com a prevenção do câncer de colo do útero. Caso a cor não lhe caia bem, use azul-marinho por outro câncer — o colorretal. Sem esquecer as doenças inflamatórias intestinais, às quais se reserva o roxo no mês de maio. A maior confusão ficou com setembro. Ainda não se sabe bem por que, mas todos o querem. É o mês da prevenção ao suicídio, do combate à gordofobia, do incentivo à doação de órgãos, das campanhas contra o câncer de mama e, como se não bastasse, do #NoFapSeptember. O movimento começou em fóruns de internet na década passada, depois da divulgação de um estudo chinês (pouco confiável) que apostava em abrir mão do consumo de pornografia e da masturbação como forma de aumentar os níveis de testosterona no sangue e melhorar a ação da dopamina. A trupe vê na abstinência a solução para a procrastinação. O poder de dizer não aos prazeres da vida ajudaria a passar no concurso público, a ser promovido na firma e a aumentar a produtividade, a concentração e o vigor no trabalho. Nem Freud seria capaz de explicar as razões. O movimento é liderado por homens heterossexuais, jovens, entre 20 e 30 anos, nascidos no bojo do capitalismo informacional. Esta foi uma das revoluções recentes do sistema, consolidada no fim dos anos 1970 e marcada por inovações que impuseram uma nova lógica à vida social. Como pontuou o sociólogo espanhol Manuel Castells, estudioso do tema, a informação passou a ser a principal moeda de troca, uma vez que deixamos rastros, pistas e um bocado de dados enquanto navegamos pela internet. Com isso, aquilo que era informação privada virou moeda no mercado; o que era intimidade virou dado; e o que havia de singular em cada um passou a ser vendido como autenticidade, a ponto de as fronteiras entre o público e o privado terem sido dilaceradas. Nessa toada, o mercado de trabalho colonizou a vida particular de cada um de nós. Entrou pela porta da sala e dominou aquilo que você vê, lê ou escuta nos momentos de lazer. Não à toa, os momentos de pausa se transformaram. Cada podcast, livro lido, série assistida ou exercício físico precisa ensinar algo útil, tornar você mais produtivo, mais antenado, mais preparado para o próximo desafio. O descanso virou investimento. E, se não render, foi tempo mal gasto. O movimento passou pela mesa da cozinha e mapeou a alimentação diária. Invadiu a lavanderia e impôs uma nova etiqueta ao vestir, com tecidos tecnológicos e versáteis que comunicam disposição antes mesmo de qualquer palavra. Chegou ao quarto e padronizou o sono. Agora chegou à alcova e quer dominar até os desejos. Saudade do tempo em que só a Igreja dizia o que era pecado e os meses eram organizados pelas folhinhas coladas na geladeira de casa.
Nem o prazer solitário escapou
Saudade do tempo em que só a Igreja dizia o que era pecado e os meses eram organizados pelas folhinhas






