O jeito com que taxistas de Londres e Rio lidam com o trânsito mostra como lidamos com a cidade Táxis circulam pelo Rio — Foto: Gabriel de Paiva Não há melhor caminho para entender o Brasil do que de fora do Brasil. Olhando de lá para cá, nós ganhamos a chance de perceber nuances centrais da cultura nacional que, presos ao caos cotidiano, deixam passar despercebidas as pistas sobre quem somos. Na última semana, estive em Oxford em uma sequência de debates animados sobre os dilemas da nação. Todos os anos, jovens estudantes brasileiros param a intensa rotina de estudos na universidade de quase mil anos para receber intelectuais, personalidades, agentes públicos e jornalistas em um clima de petit comité. Nem mesmo as conversas acaloradas sobre as eleições ou sobre o tremor nos bastidores de Brasília em um pub local agitaram o pacato vilarejo do interior da Inglaterra. Ao contrário das imagens comumente atribuídas a uma cidade universitária, Oxford, apesar de jovem, é silenciosa e tranquila. Os restaurantes fecham perto das 20h e os bares não passam da meia-noite. É mais tedioso do que Cabo Frio na baixa temporada. Tão calmo que a maior emoção da viagem se deu nos últimos minutos, no check-in do voo para São Paulo. O cansaço, junto da falta de atenção, me fez esquecer que Londres tem mais de um aeroporto. E o pior: é possível chegar por um e ir embora pelo outro. Só descobri o erro quando a atendente com sotaque de rainha me disse: “Senhor, é preciso despachar suas malas em Gatwick, a 60 km daqui, em até uma hora. Seu voo parte de lá.” Saí correndo pelo terminal com duas malas pesadas a me fazer companhia. Venci grupos de turistas, faixas de interdição e elevadores vagarosos até o ponto de táxi. Um senhor inglês me indicou o veículo e me perguntou: “Para onde vamos?” Quando respondi, ele devolveu: “Hora do rush. Impossível chegar a tempo.” Clamei pelos deuses. Ele emendou: “Leis de trânsito.” Fui tomado por uma saudade imensa do Rio e dos seus amarelinhos. Não há outra cidade no mundo na qual passageiros e motoristas sejam tão conectados pelos afetos. Dentro de um táxi carioca, não há atitude blasé, relação capitalista ou prestação de serviço. Todo encontro é uma relação de amor ou ódio. Ódio das vezes em que me mandaram descer antes do destino, dos trajetos inventados de supetão ou do risco de vida por conta das geringonças movidas a gás. Amor pela empatia dos motoristas. Não há amor maior. Um problema seu torna-se um problema nosso. Rapidamente, um descuido do passageiro se transforma em uma questão de honra do motorista. A honra é o mecanismo que amarra o eu ao grupo, como bem ensinou o Julian Pitt-Rivers. Ela é sempre relacional. O sujeito, então, age sob a pressão de “estar à altura” do nome que carrega, internalizando o olhar da sociedade como um tribunal. A honra inventa um eu que não é um indivíduo isolado, mas a junção de lealdades coletivas. “Aqui é 021, é Rio de Janeiro, meu irmão. Tá pensando o quê?”, me disse certa vez um taxista quando soube da minha pressa para embarcar no Aeroporto Santos Dumont enquanto furava semáforos e subia na calçada para ganhar tempo. Ao contrário do colega inglês, ele tomou para si meu atraso como um dilema da cidade. Se no Reino Unido os motoristas clamam por “God save the king” mesmo sabendo da falta de qualquer efeito prático, aqui nós sabemos do valor de um pedido com afeto: “God save our cabs.”