Exemplos históricos, e bem-humorados, de práticas que podem ajudar a melhorar a barra Memórias da segurança no Rio — Foto: Ilustração ChatGPT Falta um Guarda Medalha, como era conhecido o policial de trânsito postado na esquina de Maria Angélica com Jardim Botânico. Tinha autoridade e o peito coberto por galardões de reconhecimento. Naqueles dias da vida carioca, os maus motoristas cometiam no máximo a imprudência de avançar diante do sinal amarelo. Era o suficiente para o Guarda Medalha entrar em ação com os seus poderes de homem da lei. Ostentando um bigodinho parecido com o do inspetor Clouseau em “A pantera cor de rosa”, ele encenava na frente de todos uma carraspana no infrator e, como se fosse o personagem de desenho animado, interrompia o trânsito para que passassem em paz as crianças das duas escolas mais próximas, a Patotinha e a Atchim. Falta um cara desses, um Raul Longras, por exemplo. Ele era o apresentador de um programa de notícias populares no início da TV Globo e tinha um jeito peculiar de tratar os bandidos que atravancavam o sossego de uma cidade onde violência já dava as caras. Longras também ostentava um bigodinho, no entanto, era avacalhado, distante do porte retilíneo, de elegância britânica, do Guarda Medalha. Em comum, mostravam-se sócios na maneira de tratar vagabundo como vagabundo, sem qualquer consideração. Davam-lhes um rebaixamento moral. Raul Longras botava na tela o retratinho três por quatro do criminoso e, em tom de deboche, apresentava-o aos telespectadores com o desapreço merecido: “Olhem bem, este boneco”. Falta uma dupla de Cosme e Damião como aquela do samba famoso do Wilson Baptista. O par de PMs era um símbolo da segurança carioca. Percorria os bairros a pé, sem essa boa vida moderna do policial malocado, esperando o crime chegar às barbas refrigeradas da sua viatura-jurisdição. Na letra do samba, cantado por Jorge Veiga, a dupla de Cosme e Damião multa o protagonista, um cidadão que comete o crime, na época quase hediondo, de estacionar em lugar proibido da Praça Paris. O Cosme e o Damião não se apiedam quando o sujeito oferece como suborno um cigarro e ainda tem a cara de pau de dizer que está ali só para mostrar o Pão de Açúcar à sua amada Conceição. Um dos PMs rebate, ironicamente polido: “nem se o senhor fosse o Café” – referindo-se não à bebida, mas ao presidente da época, o Café Filho. Faltam esses homens da lei, rigorosos e atuantes. Quando a noite caía, com todas suas assombrações, brotava da escuridão a poesia do guarda noturno. Eu ainda tenho seu apito delicado acalentando a memória dos meus sonhos infantis. Aparecia envolto na fumaça esverdeada das espirais Durmabem, deixava a sensação de tudo estar em seu lugar – apesar do ranger engraçado, no quarto ao lado, das molas da cama de papai e mamãe. O guarda noturno zelava pelo sono profundo da família. Dava voltas nos quarteirões durante a madrugada e a cada não sei quantos metros, para embalar o sonho de todos, apitava breve. Não havia Verisure, câmeras do Gabriel. Acho, não tenho certeza – deve ter sido em homenagem ao Guarda Noturno a valsa feliz que dizia “noite alta, céu risonho, a quietude é quase um sonho”. Falta tocar uma nova valsa.
O que falta na segurança do carioca
Exemplos históricos, e bem-humorados, de práticas que podem ajudar a melhorar a barra









