A previsão de El Niño acendeu o alerta na região que mais sofre com o fogo no país. O fenômeno climático intensifica a seca no Centro-Oeste, aumentando o risco de incêndios. Por conta disso, governos e ONGs locais iniciaram trabalhos para evitar um cenário como o de 2024, após o último El Niño, quando 15% do território pantaneiro foi arrasado pelas chamas. Segundo estatísticas, 62% do bioma já queimou ao menos uma vez desde 1985. Há duas semanas, o governo federal, por meio do Ibama, iniciou a operação especial no Pantanal, com ações de prevenção, fiscalização e punição pelo uso irregular do fogo. Foram publicados editais de notificação a 557 propriedades, onde foi detectado alto risco de incêndios, para que tomem medidas preventivas e reforcem a estrutura de resposta, com monitoramento e capacitação de brigadistas. Além disso, o Ibama realizará a queima prescrita em 200 mil hectares de área pública. Essa medida “limpa” uma área onde há muita disposição de material orgânico que poderia servir como combustível para incêndios no período crítico da seca, como certos tipos de grama. Já o governo de Mato Grosso do Sul implementou o Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo (Pemif) e sua Operação Pantanal, com um investimento de R$ 24 milhões. O trabalho inclui visitas preventivas a propriedades privadas, uso de aeronaves, satélites, drones, ampliação da frota terrestre e hidroviária no bioma e incremento de estruturas de resgate da fauna. “O foco é sair de uma atuação apenas reativa para uma atuação de antecipação, presença estratégica e resposta qualificada”, explicou o governo, em nota. Agentes estaduais realizaram queimas prescritas no Parque do Rio Negro e no Parque das Várzeas do Rio Ivinhema. O governo destacou a mudança recente no padrão de distribuição de chuva e, por isso, ampliou o Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima, que acompanha condições de seca e emite alertas. Prevenir é mais barato A sociedade civil também está se organizando. A ONG SOS Pantanal, por exemplo, formou 103 brigadistas neste ano, em fazendas, comunidades ribeirinhas e universidades. Em cada território, o grupo mapeia o risco de incêndio, além de elaborar planos de manejo do fogo. Recentemente, foi aprovado o projeto Corredor de Prevenção e Resposta aos Incêndios, que vai conectar cinco territórios no Pantanal Norte, em Mato Grosso, articulando comunidades tradicionais, terras indígenas, unidade de conservação e reservas privadas. — A ideia é sempre trabalhar na prevenção, que é mais barata e eficaz. Precisaremos mais do que nunca dessa preparação, porque um possível “super-El Niño” promete um cenário muito desafiador — ressalta o biólogo Gustavo Figueiroa, diretor do SOS Pantanal. O El Niño de 2026 deve ser mais um capítulo do “novo normal” que o Pantanal passou a viver. Dados do sistema de monitoramento MapBiomas mostram que houve redução de 75% das áreas alagadas em relação à primeira década de mapeamento, entre 1985 e 1994. Desde a última grande cheia, em 2018, o bioma tem apresentado maiores períodos de seca, e o pico de cheia anual (historicamente entre março e abril) praticamente não ocorre mais. Em 2024, quando houve a pior seca dos últimos 40 anos e recorde de incêndios, a superfície de água e de campos alagados ficou 73% abaixo da média histórica. O Rio Paraguai, um dos mais importantes da região, atingiu marca histórica negativa naquele ano e ainda não se recuperou totalmente. No início de junho, a altura do rio em Ladário (MS) estava em 2 metros e 33 centímetros, quando o normal seria cerca de 4 metros. Anomalias como essa atingem fauna, flora e humanos. — O Pantanal é o bioma proporcionalmente mais afetado pelo fogo no Brasil. A redução drástica do ciclo de cheias compromete gravemente rotas migratórias, gera perda de habitat, de áreas úmidas e de alimento. O rebaixamento do lençol freático causa a seca das fontes de água na superfície, afetando tudo — explica Eduardo Rosa, coordenador do MapBiomas Pantanal. Vinícius Silgueiro, coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do Instituto Centro de Vida (ICV), afirma que o “novo normal” no Pantanal acabou com a previsibilidade das estações do ano e que o prolongamento das secas aumenta crises respiratórias e insegurança hídrica na população. O risco de um “super-El Niño” exige ações do poder público, frisa ele: — O foco precisa migrar urgentemente para a adaptação estrutural, antecipando o período de proibição do uso do fogo para manejo das roças, contemplando o fortalecimento da fiscalização remota, planejamentos urbanos e mais orçamento. ‘Exército’ de brigadistas tem número recorde O efetivo de brigadistas federais este ano será recorde no país. São 4.630 pessoas, somando os contingentes de Ibama e ICMBio. O número supera a quantidade de 4.358 do ano passado e foi incrementado em função do El Niño, fenômeno que intensificará a seca no Norte , no Nordeste e no Centro-Oeste do Brasil. Mais da metade desse total é formada por indígenas. Eles serão distribuídos entre 240 brigadas, em áreas, principalmente, de florestas públicas, terras indígenas, quilombolas e assentamentos, especialmente na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado e na Caatinga. Além disso, o Ibama terá cerca de 400 agentes especializados e 18 aeronaves. Presidente interino do Ibama, Jair Schmitt explica que as mudanças climáticas vêm exigindo adaptação das medidas preventivas. — Em 2024, o Pantanal pegou fogo já em fevereiro, no período da chuva, então, tem que antecipar contratações, reorganizar planejamento e modelos de contrato. O planejamento de 2026 foi totalmente influenciado pelo El Niño — diz ele. Em fevereiro, o Ministério do Meio Ambiente antecipou a portaria que declara emergência ambiental por risco de incêndios florestais em áreas vulneráveis. A norma identifica áreas em risco em todo o país e os períodos de maior vulnerabilidade para viabilizar a contratação emergencial de brigadistas federais. As medidas ocorrem dentro da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF). Criada em 2024, a PNMIF incrementou a governança do fogo, considerando a mudança do clima e a demanda de integração entre órgãos.