Previsão é o fenômeno mais intenso nos últimos 140 anos, agravando cheias, secas e incêndios florestais Estragos provocados pelas chuvas no Rio Grande do Sul em 2024 — Foto: Nelson ALMEIDA / AFP/13/05/2024 O Brasil precisa se preparar desde já para os efeitos nefastos do próximo El Niño, fenômeno climático provocado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico que favorece eventos como secas severas, grandes incêndios florestais e tempestades devastadoras. Dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos e da Organização Meteorológica Mundial, da ONU, mostram que a probabilidade de ele ocorrer a partir do segundo semestre deste ano ultrapassa 90%. Segundo cientistas, poderá ser o mais intenso dos últimos 140 anos e foi apelidado “Super El Niño”. Avisos não faltam. Uma nota técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais diz que o El Niño poderá alterar de forma significativa padrões de chuva e temperatura. Nas regiões Norte e Nordeste, espera-se queda nas precipitações, com secas e atraso no início do período chuvoso. No Sudeste e no Centro-Oeste, o cenário prevê ondas de calor mais frequentes e menor umidade relativa do ar, com impacto na saúde da população. A combinação de temperatura elevada e estiagem pode favorecer incêndios florestais no Pantanal. No Sul, a tendência são chuvas intensas, com riscos de inundações e deslizamentos. As previsões preocupam não só pelos riscos óbvios, mas porque, no Brasil, o histórico tem revelado negligência e despreparo. “O Brasil responde a esse cenário com estruturas do passado”, escreveu em artigo no GLOBO Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental. “A cada evento extremo, repete-se o roteiro: emergência, resposta tardia, reconstrução parcial e esquecimento.” As chuvas catastróficas no Rio Grande do Sul, que deixaram mais de 180 mortos e provocaram destruição sem precedentes no estado em 2024, deveriam ao menos servir de lição. O despreparo não acontece só por omissão ou inépcia do Executivo. No Congresso, parlamentares ignoram a emergência das mudanças climáticas. Em vez de reforçar a proteção ao meio ambiente, atuam no sentido contrário. Não bastasse o desmonte da legislação de proteção já ocorrido, nos últimos dias a Câmara aprovou um projeto restringindo o uso de satélites no combate ao desmatamento. Não chega a proibi-lo, mas dificulta — um retrocesso. O texto aprovado também impede a destruição de equipamentos usados por garimpeiros ilegais que devastam a floresta e contaminam os rios. Espera-se que o Senado barre tais despropósitos. É um equívoco imaginar que há incompatibilidade entre desenvolvimento e conservação ambiental. Eles devem caminhar juntos, de forma sustentável. A deterioração do meio ambiente pode alterar todo o regime de chuvas, afetando o agronegócio. E, num mercado mundial cada vez mais competitivo, exige-se garantia de que os produtos não venham de áreas desmatadas. Zelar por uma legislação ambiental rigorosa significa também ampliar mercado às exportações brasileiras. A julgar pelo histórico de outros anos, como 2023 e 2024, o El Niño trará tempos difíceis aos brasileiros. Seria uma lástima se o país não se preparasse. Não há como impedir eventos extremos, mas é possível enfrentá-los de forma mais planejada, evitando a correria quando secas, incêndios, inundações e deslizamentos já estão fora de controle. Executivo e Legislativo precisam estar cientes de sua responsabilidade. Não poderão alegar que não sabiam.
‘Super El Niño’ exigirá preparo maior do Brasil
Previsão é o fenômeno mais intenso nos últimos 140 anos, agravando cheias, secas e incêndios florestais















