Sob a expectativa de um “Super El Niño” nos próximos meses, governos e autoridades federais e estaduais iniciaram uma série de ações de prevenção contra enchentes e estiagens. No Sul, onde o fenômeno pode trazer temporais, o Executivo de Santa Catarina editou decreto de alerta climático. No Centro-Oeste e no Norte, que enfrentam impacto inverso — a intensificação da seca —, há medidas que antecipam o fogo no Pantanal e planos para que comunidades da Amazônia não fiquem isoladas com a baixa dos rios. O El Niño é um fenômeno natural do Oceano Pacífico tropical, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas na faixa equatorial, capaz de influenciar o clima em várias regiões do mundo ao alterar ventos e regimes de chuva. O monitoramento de agências internacionais, dos EUA, Europa e Austrália, indicam que o El Niño é quase certo em 2026, com 82% de chance em junho e julho, e 96% entre dezembro e fevereiro. O boletim da semana passada do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) frisa que o maior risco nos próximos meses está no Sul, com possibilidade de chuvas intensas e desastres hidrogeológicos. O Rio Grande do Sul é o estado mais sensível, alerta o boletim. Já Santa Catarina apresenta um “sinal relevante de impactos compostos”, entre inundações, enxurradas, alagamentos e deslizamentos. O Cemaden lembrou que o El Niño da temporada 2023/2024 resultou na maior seca em 70 anos. Em setembro de 24, 4.748 cidades do Brasil — mais de 80% dos municípios do país — enfrentaram algum grau do problema, 1.349 delas em níveis severos e extremos. No presente ano, é possível que os efeitos se repitam, frisa o boletim. Outra consequência esperada é o aumento de ondas de calor, que podem ser mais intensas, atingindo também o Sudeste e o Nordeste, o que “pode aumentar o risco de incêndios nessas áreas, com potencial impacto à saúde da população”, finaliza o boletim. O que já se sabe sobre o El Niño 2026? Estado de alerta Diante do quadro, alguns estados já anunciaram medidas especiais. Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello (PL) decretou estado de alerta climático por 180 dias para agilizar a liberação de recursos e a execução de obras preventivas e emergenciais nas cidades catarinenses em caso de necessidade. No entanto, como mostrou a coluna de Lauro Jardim, no GLOBO, a gestão executou menos de um sexto do orçamento inicialmente previsto para a Secretaria da Proteção e Defesa Civil em 2025, segundo dados do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Fiscal (Sigef-SC). Em resposta, o governo catarinense disse que a execução orçamentária “reflete um redirecionamento técnico de recursos ao longo do exercício, conforme as prioridades operacionais e a capacidade de execução das ações previstas”. No Rio Grande do Sul, o nível de investimentos se aperfeiçoou após a tragédia de 2024, quando 180 pessoas morreram. O Plano Rio Grande, criado para enfrentar eventos extremos, vem executando medidas de recuperação e prevenção. Já foram aprovados 227 projetos, ao custo de R$ 4,2 bilhões, como a contratação de um super radar meteorológico para a Região Metropolitana de Porto Alegre, de 130 novas estações de monitoramento das bacias hidrográficas e de serviços de simulação de manchas de inundação, além da criação de um protocolo de comunicação de risco. Em Porto Alegre, a Defesa Civil quintuplicou sua estrutura técnica e criou o Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil (Cemadec). Hoje, todos os 497 municípios gaúchos contam com planos locais de contingência. No Amazonas, o governo estadual antecipou ações preventivas, com monitoramento contínuo dos níveis dos rios, integração entre órgãos e reuniões com o setor privado. Em 2023 e 2024, em função da seca, muitas comunidades que dependem da navegabilidade dos rios ficaram sem alimentos e combustível. Em Mato Grosso do Sul, bombeiros iniciaram o trabalho de queima prescrita, quando a área é queimada de forma controlada, antes do período da seca, a fim de “limpar” o terreno e diminuir a disposição de material orgânico que serve como combustível para incêndios no período crítico. O governo federal também antecipou seu planejamento em função do El Niño. O efetivo de brigadistas esse ano será recorde: 4.410, somando Ibama e ICMBio — mais da metade formada por indígenas. O Ibama ainda vai contar com cerca de 400 veículos especializados e 18 aeronaves. O Ibama também realizará queima prescrita em 200 mil hectares de área pública e está emitindo alertas nas áreas de alto risco a incêndios, para que tomem medidas preventivas. O primeiro decreto, da semana passada, notificou 547 propriedades no Pantanal. — O planejamento de 2026 foi totalmente influenciado pela previsão do El Niño. Já havia a expectativa desde o ano passado, só não sabíamos a intensidade — destaca Jair Schmitt, presidente interino do Ibama. Em fevereiro, o Ministério do Meio Ambiente publicou portaria que declara emergência ambiental por risco de incêndios florestais em áreas vulneráveis. Já o Ministério das Cidades informou que investe R$ 33,5 bilhões em obras de drenagem e contenção de encostas e outros R$ 25 bilhões no abastecimento de água, sobretudo no Norte. Moderado a forte A intensidade do próximo El Niño ainda não é certa, mas as estimativas indicam 37% de probabilidade de fenômeno muito forte, 30% para intensidade forte e outros 30% de ocorrência moderada. Ou seja, há “uma chance em três” de acontecer o “Super El Niño”, afirma Leydson Dantas, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). — Nos próximos meses a intensidade vai iniciar em fraca e vai atingir um nível de moderado a forte — prevê Dantas, reforçando que o fenômeno é só um elemento dentro do contexto geral de emergência climática. — A gente se preocupa muito com a questão do El Niño porque são efeitos de curto prazo, mas acaba esquecendo do aquecimento global. Já o meteorologista especialista em El Niño Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), explica que os impactos no Brasil se dão em momentos distintos. As chuvas intensas no Sul vêm na primavera, enquanto a seca no Norte fica para o início de 2027, no período tradicionalmente chuvoso da maioria dos estados. Ele diz que o Inpe, junto a outras instituições federais, prepara um boletim de acompanhamento e previsão para servir de informação para as autoridades. — Há mais informações e mecanismos de alertas atualmente, e os episódios no Sul em 2023 e, principalmente, em 2024 foram muito impactantes, o que gera muita apreensão na população — pontua Sampaio. Algumas projeções indicam que o planeta pode entrar num cenário similar a um “El Niño semipermanente” até o fim do século. Na prática, isso significa que, independentemente da presença do fenômeno, eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais presentes, com destaque para países tropicais como o Brasil.