O desmatamento na Mata Atlântica registrou o menor patamar de sua história recente em 2025. Segundo levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com MapBiomas e Arcplan, a supressão do bioma recuou 28%. O destaque foi a queda de 40% no desmatamento de florestas maduras que, pela primeira vez em quatro décadas, ficou abaixo da marca de 10 mil hectares ao totalizar 8.668 hectares. “Nesse ritmo até 2030 chegaremos ao desmatamento zero”, diz Carlos Eduardo de Viveiros Grelle, pesquisador, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo Grelle, o recuo foi fruto de maior fiscalização e do fato de a Mata Atlântica ser o único bioma do país a contar com uma legislação própria (a Lei nº 11.428 de 2006), o que vem garantindo uma governança ambiental mais efetiva. Manter esse ritmo, no entanto, é complexo porque o bioma divide espaço com o coração produtivo do país. Hoje, 85% da Mata Atlântica está dentro de propriedades privadas (fazendas e imóveis rurais) e 50% de toda produção agropecuária brasileira vem do bioma. “Só 15% da mata está em terras públicas”, afirma Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo SOS Mata Atlântica, que informa que nela estão 20% do rebanho bovino do país, 20% da produção de soja e a maior parte da cana-de-açúcar, café, cítricos e várias outras culturas alimentares. O bioma distribui-se pelo litoral e o interior de 17 Estados, além de cobrir 13% do território brasileiro. Para Guedes Pinto, atingir o desmatamento zero transformará a Mata Atlântica na primeira região do mundo a reverter um histórico de destruição ambiental e registrar a regeneração efetiva de suas florestas. Nas últimas três décadas, as organizações que monitoram o ecossistema detectaram a regeneração de quase 5 milhões de hectares de Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, porém, descobriram que 22% de tudo o que é regenerado é derrubado de novo. “Atualmente, restam 24% de cobertura florestal, sendo metade floresta madura, que nunca foi cortada, e metade vegetação jovem, em regeneração natural ou plantada”, diz Grelle. A regeneração é essencial por conta do chamado “sequestro e armazenamento do carbono”, responsável por reduzir a concentração do gás de efeito estufa no ar. Acontece que apenas as chamadas florestas “maduras”, nunca derrubadas, é que imobilizam quantidade maior de CO2. “Proteger a Mata Atlântica deixou de ser apenas uma agenda de conservação da biodiversidade”, diz Mary Sorage, presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, órgão máximo de gestão da RBMA. Segundo ela, os cuidados da mata devem ser uma estratégia de adaptação climática, segurança hídrica, redução de riscos de desastres e estabilidade econômica. Uma demonstração dessa estratégia ocorre no município de Extrema (MS). A cidade é referência nacional e internacional na preservação florestal e hídrica por meio do Projeto Conservador das Águas. Concebido em 2005, através de lei municipal, tem como objetivo manter a qualidade dos mananciais da cidade e promover a adequação das propriedades rurais, que são premiadas se alcançarem metas estabelecidas pela Secretária de Meio Ambiente municipal. Outra iniciativa é o Legado das Águas, parte das Reservas Votorantim, com 31 mil hectares conservados no Vale do Ribeira (SP). “Conservação pode ser também uma plataforma de geração de valor econômico, conhecimento e desenvolvimento territorial”, afirma André Monteiro, CEO da Reservas Votorantim. Na área, são desenvolvidas atividades econômicas compatíveis com a conservação florestal, como pesquisa científica, restauração ecológica, produção de espécies nativas e experiências de turismo de natureza. “Proteger a Mata Atlântica não é incompatível com o desenvolvimento econômico. A questão central é qual modelo de desenvolvimento o Brasil deseja consolidar”, diz Sorage.