Quando o sol começa a se pôr no horizonte, aliviando o calor intenso na região do Baixo Sertão de Alagoas, Entremontes se transforma em um grande ateliê a céu aberto. Diante dos casarios coloridos, cadeiras ocupam as calçadas, linhas ganham vida entre os dedos que tecem o redendê e as conversas seguem o compasso das agulhas. A cena se repete há gerações. É um ritual cotidiano que ajudou a dar ao povoado emoldurado pelo Rio São Francisco o título de “capital do bordado”. Ali, essa arte não é apenas um ofício, mas uma linguagem que costura memórias, afetos e pertencimentos. Uma herança transmitida de mãe para filha, de avó para neta, numa tradição historicamente feminina. Praticamente todas as mulheres da localidade – mais de 300 dos cerca de mil habitantes – dominam a técnica de transformar linha em rendas geométricas.
Uma figura destoa nessa paisagem: Miguel Correia, um jovem advogado de 25 anos. Único homem bordador do vilarejo, ele ocupa um raro lugar numa tradição moldada por mãos femininas. Entre as contagens precisas dos fios e criações inovadoras, Correia desafia convenções enquanto ajuda a manter viva uma arte que atravessa gerações em Entremontes, um distrito de Piranhas, município a 260 quilômetros de Maceió. “Sempre foi muito comum os homens seguirem o caminho dos pais e as mulheres o das mães e avós”, explica Correia, neto de dona Maria Gogó, uma das bordadeiras pioneiras da comunidade e responsável por introduzir o redendê na localidade. De origem nórdica, a técnica chegou ao Brasil durante o período colonial e encontrou terreno fértil na região fronteiriça entre Alagoas e Sergipe, consolidando-se como uma das mais importantes expressões do artesanato local.
















