Enquanto as mortes violentas da população em geral caíram 5,4% em 2024, as de crianças e adolescentes de 0 a 17 anos cresceram 3,7%. Foram quase sete vidas interrompidas por dia, a maioria negra, a maioria adolescente, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025. Estamos falhando com quem mais precisamos proteger.

Quando não morrem, são violentados. Em 2024, mais de 51 mil crianças entre 0 e 13 anos foram vítimas de estupro. Isso é apenas o que chega ao conhecimento das autoridades, dado o altíssimo nível de subnotificação. Cresceram também os registros de abandono escolar, maus-tratos e lesão corporal em contexto doméstico. Uma em cada 8 escolas relatou ameaças de ataques em 2023; 2 em cada 3 registraram episódios de bullying. Quando crianças e adolescentes não estão seguros em casa, na escola nem na rua, onde procuram ajuda? Quem os protege?

As instituições de segurança pública falham, em diferentes graus, no cumprimento de seu papel. Uma a cada cinco mortes violentas de adolescentes no Brasil é causada por intervenção policial. Mais de 400 jovens foram mortos em 2024 por agentes que deveriam garantir sua segurança. A recente decisão do STF no âmbito da ADPF das Favelas (ADPF 635), que determinou investigação autônoma pelo Ministério Público quando há indícios de envolvimento de agentes de segurança, é um avanço. Mas chega depois da tragédia, quando o dano é irreversível.