A maioria (59,6%) dos profissionais recorre a crédito, empréstimos ou parcelamentos para fechar as contas no final do mês. Por conta do exercício para “esticar” o salário, 41,9% dizem ter o sono afetado por conta de preocupações financeiras e 71,4% desejam melhorias no trabalho ligadas a questões econômicas, como aumento salarial e benefícios. Esse é o cenário mostrado pela pesquisa “Entre o burnout e o boleto”, realizada em abril pela Up Brasil, de benefícios corporativos, com 403 profissionais no Brasil, sendo a maioria (31%) com 36 a 45 anos de idade. O levantamento, obtido com exclusividade pelo Valor, inclui respondentes com ensino superior (22,1%) e pós-graduação ou MBA (7,2%), mestrado e doutorado (1,7%). A maior parte (90%) ganha de R$ 2 mil a R$ 8 mil mensais, enquanto 10% recebem salários de R$ 8 mil a R$ 15 mil ou mais. O tamanho da empresa onde trabalham e as funções que os entrevistados ocupam não foram auferidos. “O estudo mostra que a maioria dos trabalhadores recorre a crédito [36,5%] ou empréstimos [23,1%] para fechar o mês e isso raramente aparece no radar das corporações”, avalia Mariana Cerone, CMO (chief marketing officer ou diretora de marketing) da Up Brasil. As áreas de recursos humanos monitoram clima, engajamento e turnover, acrescenta a executiva, mas o endividamento é um dado que fica na vida privada do colaborador e vaza silenciosamente para a empresa, por meio de absenteísmo, queda de foco e rotatividade de funcionários. “Há uma oportunidade enorme para o RH ampliar a régua de diagnóstico [organizacional] e levar esse argumento para os conselhos”, sugere. A maioria (59,6%) dos profissionais recorre a crédito, empréstimos ou parcelamentos para fechar as contas no final do mês — Foto: Pexels “No Brasil, falar abertamente sobre dinheiro ainda é constrangedor”, continua. “Existe um estigma que quem se endivida ‘não soube se planejar’, ‘não tem disciplina’ ou ‘não deu certo na vida’. Esse julgamento moral paralisa, as pessoas não pedem ajuda e o problema cresce no silêncio.” De acordo com o relatório, parte dos funcionários ouvidos deixa de consumir o básico (16,4%) e atrasa o pagamento de contas (15,1%) por conta do aperto financeiro. Diante do resultado do estudo, Cerone recomenda três ações para os empregadores. “É preciso incluir a saúde financeira dos times nos diagnósticos de clima, revisar o mix de benefícios usando critérios de impacto real no orçamento do colaborador e estruturar programas de educação financeira com continuidade, não apenas com palestras isoladas”, enumera. “Organizações que criam um ambiente seguro para falar sobre o tema fazem algo poderoso: quebram um tabu que já existe na jornada profissional do funcionário.”