O relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre a investigação de trabalho forçado cita a expansão das exportações de carne bovina congelada do Brasil para a China nos últimos anos, e a consequente perda de mercado americano, como exemplo dos efeitos da concorrência desleal causada. "Ao examinarmos mais a fundo, observamos uma correlação negativa entre as importações de produtos de trabalho forçado e as exportações dos EUA dos mesmos produtos, sugerindo que as exportações dos EUA podem ter sido afetadas negativamente pela concorrência de produtos de trabalho forçado", diz o relatório. Além das exportações brasileiras de carne bovina para a China, o documento aborda as vendas de tabaco do Malawi e de arroz da Birmânia. O USTR afirma que "está bem documentado que o trabalho forçado é utilizado na produção de bovinos no Brasil". O texto relata que Brasil e EUA são grandes exportadores de carne bovina, responsáveis por 48% e 19%, respectivamente, das vendas externas da proteína em 2025. Segundo o relatório, em 2025, as economias investigadas pelo USTR sobre trabalho infantil ou forçado representaram 97% das exportações de carne congelada dos EUA e 90% das exportações de carne congelada do Brasil. O documento relata que entre 2015 e 2025, o volume de exportações de carne congelada do Brasil para as economias investigadas quase dobrou em comparação com um aumento de 21% nas vendas americanas do produto. O relatório cita dados das exportações para a China, para onde o Brasil enviou quase 1,7 milhão de toneladas de carne bovina em 2025. "Como as importações chinesas de carne congelada demonstram, os efeitos negativos da competição de trabalho forçado sobre as exportações dos EUA não se limitam a bens manufaturados, mas também podem afetar adversamente as exportações agrícolas dos EUA", apontou o órgão comercial americano. O texto relata que as exportações de carne congelada do Brasil para a China aumentaram mais de 17 vezes, de 94 mil toneladas em 2015 para quase 1,7 milhão de toneladas em 2025 enquanto as vendas americanas tiveram queda. A participação do Brasil nas importações de carne congelada da China também aumentou (de 38% em 2021 para 53% em 2025) enquanto a participação dos EUA diminuiu de 6% para 2% no período. O órgão também cita as diferentes de preços pagos pelos chineses pela carne brasileira e americana. "Embora nem todas as importações chinesas de carne congelada do Brasil sejam necessariamente produzidas usando trabalho forçado, a prevalência de trabalho forçado na produção de carne bovina no Brasil sugere fortemente que pelo menos algumas das importações da China foram produzidas total ou parcialmente com trabalho forçado", diz o texto. "O fracasso da China em impor e aplicar efetivamente uma proibição de importação de mão-de-obra forçada à carne congelada do Brasil proporcionou uma vantagem de custo para a carne bovina brasileira e uma concorrência distorcida", completa o relatório. O USTR diz que outros fatores podem ter influenciado na relação comercial e na diferença competitiva entre a pecuária brasileira e americana, como o tamanho do rebanho de carne bovina dos EUA, mas ressalta "provavelmente teriam experimentado "maiores vendas, receitas e exportações para a China" se as regras aplicadas quanto à proibição de trabalho forçado fossem iguais nos dois países. — Foto: Luis Ushirobira/Valor