Não fosse a cegueira ideológica da gestão petista, estatal já teria sido privatizada há muito tempo A sede dos Correios em Brasília — Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil Os Correios persistem como usina de más notícias. O balanço do primeiro trimestre revelou prejuízo de R$ 3,16 bilhões, quase o dobro do registrado no ano passado. Na última vez em que a estatal apresentou resultado trimestral positivo, o presidente era Jair Bolsonaro, Dorival Júnior ainda dirigia o Flamengo, e a novela das 9 era Pantanal. Desde setembro de 2022, foram 14 trimestres consecutivos no vermelho. As portas só continuam abertas em virtude do empréstimo de R$ 12 bilhões concedido de última hora por cinco bancos, com garantia do Tesouro Nacional e sem o devido escrutínio, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). Para 2026, estão previstos novo rombo e novo empréstimo, em torno de R$ 7 bilhões. Não fosse a cegueira ideológica do governo, os Correios já teriam sido privatizados há muito tempo, como previa o projeto engavetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A direção da estatal insiste na viabilidade do plano de reequilíbrio financeiro, mas tem se negado a prestar contas detalhadas sobre sua execução. A persistência de perdas mensais de R$ 700 milhões é sinal de que há algo errado. As promessas de otimização logística e melhorias operacionais seguem no plano das promessas. O programa de demissão voluntária ajudou a reduzir gastos, mas os avanços foram tíbios, dada a baixa adesão até agora. A empresa argumenta que o resultado negativo decorre da reserva alocada no balanço contra ações trabalhistas, estimada em R$ 1 bilhão. O argumento não faz sentido. Na revisão do balanço de 2022 houve acréscimo da mesma monta e, no ano seguinte, a empresa voltou atrás sem explicação convincente. Ante protestos do TCU e da Controladoria-Geral da União (CGU), os recursos para pagar indenizações a funcionários agora entraram de novo na conta. Não dá para dizer que seja errado ou que fosse inesperado. Do começo ao fim, os números mostram uma empresa doente. A receita com serviços caiu de R$ 3,94 bilhões para R$ 3,85 bilhões. Houve recuo em duas das principais fontes de faturamento: encomendas e postagens internacionais. Devido à piora dos serviços e aos atrasos, as indenizações a clientes que receberam entregas fora do prazo também cresceram. O pico das reclamações aconteceu perto do Natal, devido à greve dos funcionários. Como outros serviços postais estatais, os Correios sofrem com quadro de pessoal inchado, interferências políticas e obrigações legais que limitam a autonomia da gestão. Não há outra saída razoável senão a concessão à iniciativa privada. A estatal já comprovou ser incapaz de competir nos segmentos mais rentáveis. Uma privatização com modelagem adequada pode garantir a manutenção de serviços essenciais e, ao mesmo tempo, assegurar um negócio sustentável. A outra opção é prolongar o sangramento público, cuja conta recai sobre o Tesouro. No ano passado, houve até uma exceção descabida para pagá-la driblando regras fiscais. Mais desperdício de dinheiro do contribuinte em troca de serviço ruim para os cidadãos.