Cuba saiu em defesa nesta terça-feira (2) do conglomerado empresarial controlado pelos militares conhecido como Gaesa, alvo de sanções dos Estados Unidos há anos, afirmando que o grupo contribuiu para o desenvolvimento econômico e social do país, apesar da recente intensificação da pressão americana. O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, acusa o Gaesa de concentrar secretamente os lucros dos setores mais valiosos da economia cubana e utilizá-los em benefício das Forças Armadas e da elite do país. As acusações fazem parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump para asfixiar economicamente a ilha por meio de um bloqueio ao petróleo e do endurecimento das sanções, cujo objetivo é forçar uma mudança de governo. Em comunicado divulgado nesta terça-feira, Cuba rejeitou as acusações de corrupção envolvendo o Gaesa e acusou Washington de tentar confundir “nosso povo e a opinião pública internacional”. “O Gaesa não é uma estrutura opaca nem paralela ao Estado cubano; pelo contrário, é uma resposta cuidadosamente construída e de comprovada eficiência diante do bloqueio econômico que historicamente tentou sufocar a Revolução Cubana”, afirmou o governo. A liderança cubana raramente fala publicamente sobre o conglomerado, argumentando que o sigilo é necessário para contornar as sanções americanas. Não há informações públicas sobre qual parcela da economia cubana é controlada pelo Gaesa. Estimativas independentes apontam uma participação entre 40% e 70%, incluindo muitos dos hotéis cinco estrelas da ilha, localizados tanto nas praias quanto em áreas nobres de Havana. Vista de Havana, Cuba, 29 de outubro de 2019. Foto tirada em 29 de outubro de 2019. — Foto: REUTERS/Alexandre Meneghini Saída de redes hoteleiras Diversas empresas do setor hoteleiro vêm se afastando discretamente do Gaesa diante das sanções americanas e das ameaças de punições. A Reuters teve acesso aos comunicados enviados a operadoras de turismo por duas das maiores redes atuantes em Cuba: a canadense Blue Diamond Resorts e a espanhola Iberostar. As duas anunciaram o rompimento de vínculos com hotéis ligados ao Gaesa e atingidos pelas sanções. As decisões ocorreram após um decreto assinado por Trump em 1º de maio ampliar significativamente as restrições econômicas contra Cuba, passando a atingir “qualquer pessoa estrangeira” que opere em qualquer setor da economia cubana. O prazo de adaptação concedido às empresas termina nesta sexta-feira. A Blue Diamond deixará completamente o mercado cubano, abandonando a gestão de 15 hotéis. Já a Iberostar continuará administrando apenas empreendimentos que não estejam vinculados ao Gaesa. As mudanças não significam necessariamente o fechamento dos hotéis. Segundo duas fontes do setor, a administração será transferida para a Gaviota, empresa de turismo ligada ao conglomerado militar. Pacotes e reservas para hotéis atualmente administrados pela Iberostar, por exemplo, continuarão disponíveis até outubro. A Iberostar não respondeu imediatamente a pedidos de comentário. Já o site da Blue Diamond estava fora do ar e não foi possível localizar um contato de imprensa da companhia. Impacto sobre transporte e turismo A ordem executiva americana também levou as empresas de navegação CMA CGM e Hapag-Lloyd a suspenderem novas reservas de carga para Cuba por tempo indeterminado. A medida ameaça cerca de 60% do volume de transporte marítimo da ilha. Diversas companhias aéreas, incluindo a russa Rossiya Airlines e a Air Canada, também suspenderam voos para Cuba em meio à escassez de combustível de aviação e à queda acentuada do turismo.