Em 2007, uma reportagem de televisão expôs a atuação de uma clínica de aborto clandestina em Campo Grande. À época, a Clínica de Planejamento Familiar já funcionava havia quase 20 anos sob o comando da médica Neide Mota Machado, oferecendo inserções de DIU, atendimentos ginecológicos e abortos.
Se até aquele momento o lugar havia operado de maneira pública na cidade e nunca fora alvo de investigações, a reportagem da TV Morena mudaria tudo. Poucos dias depois, a polícia realizou uma operação na clínica e apreendeu as fichas médicas de 9.896 pacientes que haviam passado por ali, dando origem ao maior processo penal por aborto no Brasil, conhecido como Caso das 10 Mil.
É esse episódio que serve de ponto de partida para "Coreografia da Escolha: A Disputa pelo Aborto no Brasil", livro-reportagem das jornalistas Angela Boldrini e Carolina Moraes que sai pela editora Fósforo.
As autoras identificam o caso como ponto de virada na organização de forças políticas em torno do aborto. O legado do episódio, argumentam, foi a cristalização de uma "discrepância entre a prática privada —e clandestina— do aborto e o discurso público dominante".
A obra narra os momentos que definiram o debate sobre o assunto no país e mostra como certas figuras e discursos se repetem ao longo do tempo. Foram três anos de entrevistas com atores de ambos os polos do espectro —entre políticos, médicos, ativistas, pesquisadores e mulheres cujas experiências com o aborto ganharam atenção da imprensa— e pesquisa de campo, incluindo a participação das autoras à paisana em cursos para voluntários antiaborto.













