Operações contra finanças do PCC descobriram esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e golpes digitais Operação 'Fluxo Oculto' mirou uso de criptoativos para lavagem de dinheiro no setor de combustível — Foto: Divulgação/ MP-SP As operações recentes contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, expuseram como o avanço da digitalização financeira abre espaço a novos crimes, permite integração à economia formal e cria inúmeras oportunidades para lavar o dinheiro resultante das atividades criminosas, como demonstrou reportagem do GLOBO. A transformação progressiva no perfil dos crimes — de assaltos e violência nas ruas para golpes digitais — tem pressionado o sistema de segurança pública e órgãos reguladores e de fiscalização, como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários. Entre os recursos empregados pelos criminosos, tem se destacado o uso crescente de criptoativos. Deflagrada em agosto passado, a Operação Carbono Oculto, da Receita Federal, Ministério Público de São Paulo e Polícia Federal (PF), representou um marco no enfrentamento às finanças do crime organizado. As investigações descobriram a conexão entre um esquema de produção, adulteração e venda de combustíveis com uma fintech da Faria Lima. Na semana passada, como desdobramento, a Operação Fluxo Oculto mapeou empresas-fantasmas do PCC que usavam fundos de investimento para lavar dinheiro. Foram identificadas seis fintechs e pelo menos R$ 365 milhões em operações suspeitas com criptoativos — isso é só o que foi descoberto. “Antes, o setor formal era o meio para ocultar recursos. Agora, passou a ser parte do próprio negócio criminoso”, diz Marcia Meng, superintendente da Receita em São Paulo e coordenadora de apurações da Carbono Oculto e da Fluxo Oculto. “Fintechs são criadas apenas para prestar serviço ao crime organizado.” O PCC mantinha, segundo a PF, R$ 30 bilhões em fundos de investimento e movimentou R$ 46 bilhões em transações suspeitas via fintechs em cinco anos. Golpes envolvendo Pix, fraudes de cartão de crédito, vendas e boletos falsos ou fraudes digitais de toda natureza no mundo financeiro somaram R$ 112 bilhões em 2025. São números que fazem empalidecer o faturamento com drogas e outros crimes comumente associados às facções criminosas. Como a tecnologia que faz funcionar as criptomoedas — o blockchain — garante anonimato, segurança e não tem controle central, as organizações criminosas passaram a usá-la para guardar o produto de seus crimes. Embora operações individuais com criptoativos sejam registradas, na prática há grande margem de manobra para as facções se aproveitarem delas para movimentar recursos ou elevar sua receita. Não surpreende que a Polícia Civil do Rio tenha localizado uma “fazenda” de 30 computadores, no Complexo do Lins, em área dominada pelo Comando Vermelho, consumindo energia furtada para “minerar” criptomoedas. As autoridades não estão alheias à realidade. Faz algum tempo que o BC baixa resoluções para regular o mercado financeiro digital. Fintechs têm sido obrigadas a fornecer mais informações, aproximando-se de bancos tradicionais. Foi crítica a proibição das contas em que vários correntistas compartilhavam um único registro —ou “contas-bolsão” —, usadas por criminosos em sofisticados esquemas de lavagem. Mas o crime também não fica parado. É crucial que o Estado se mantenha atualizado, não apenas para combater a lavagem digital de dinheiro, mas também para proteger o cidadão vítima de toda sorte de golpes virtuais.
Uso de criptoativos por criminosos requer atenção
Operações contra finanças do PCC descobriram esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e golpes digitais













