É, talvez, um dos slogans publicitários mais famosos do mundo. Em 2003, uma agência resumia a essência da cidade americana do pecado e da liberdade na frase "o que acontece em Vegas fica em Vegas". A imagem de um grande parque de diversões para adultos, onde era possível fugir da rotina e das regras do dia-a-dia e fazer quase tudo, porque os excessos se mantinham secretos, correu mundo e colou até hoje.

Lembrei-me dela num dos tempos mortos da abertura do 14º Fórum de Lisboa, enquanto ponderava nas inúmeras dúvidas éticas que me assaltam ao ver um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) promover, através da sua empresa universitária, o maior festival de lobby jurídico do planeta. Mortos para mim, claro, porque, para a assistência, um desfile de brasileiros poderosos ou empenhados aspirantes a sê-lo que confraternizam alegremente, todos os minutos são bons para, chamemos-lhe assim, socializar. Sobretudo nas muitas reuniões quase secretas que acontecem, à porta fechada, nos eventos privados paralelos, onde magistrados, políticos, advogados e empresários se reúnem em amena cavaqueira e questionável proximidade.

No ano passado, na altura da polêmica conferência, os céus de lisboa engarrafaram, e o aeroporto atingiu o seu limite de aterragem graças à quantidade de jatos privados de empresários brasileiros a sobrevoar a cidade. Este ano, confirmei junto das minhas fontes, a mesma extravagância: um fluxo anormal de jatos privados nos dois primeiros dias da escapadinha anual do establishment brasileiro além-fronteiras. Haja dinheiro e vontade de fazer negócio. Perdão: vontade de ouvir falar de direito e de democracia.