Foi no bairro Piedade, em Fortaleza, que o adolescente Hilário Ferreira encontrou o movimento negro. Ao interpretar Barrabás numa encenação da Paixão de Cristo e sofrer racismo da plateia, aguentou o público, mas desde então nunca mais se calou.
Sociólogo de formação, foi um dos fundadores do Grupo de União e Consciência Negra (Grucon), criado em 1982, que articulou desde a entrada da capoeira nas escolas públicas até a consolidação dos estudos negros dentro da universidade. Nas décadas de 1980 e 1990, fazia intercâmbios entre a militância preta do Maranhão e a do Ceará, defendendo um marxismo que não ignorasse a questão racial.
Em 2005, defendeu sua dissertação de mestrado sobre o tráfico interprovincial de escravizados no Ceará. A pesquisa se tornaria referência para quem quisesse entender o apagamento de figuras como José Napoleão e a Preta Tia Simoa, trabalhadores negros que protagonizaram a greve dos jangadeiros de 1881, episódio que antecedeu a Lei Áurea.
O documentário "A Rebelião dos Jangadeiros" nasceu do contato com essa pesquisa. "Ele foi e voltou com a gente nas ideias, nos ajudou a atualizar o debate, fez provocações e nos deu um depoimento que nos ajuda a recontar esse capítulo, intencionalmente omitido dos livros de história do Ceará e do Brasil", diz Cinthia Medeiros, jornalista e diretora do documentário.













