Economista-chefe para a América Latina do banco francês BNP Paribas e ex-diretora do Banco Central (BC), Fernanda Guardado chama a atenção para a fraqueza dos investimentos Fernanda Guardado, do BNP Paribas — Foto: Rogerio Vieira/Valor RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 20:22 Economista alerta: crescimento do Brasil vulnerável e inflação persiste A economista Fernanda Guardado alerta para a vulnerabilidade do crescimento econômico do Brasil, que tem sido impulsionado pelo consumo, mas com investimentos em queda. A alta dos preços dos combustíveis e a incerteza global podem limitar a redução da Selic pelo Banco Central. Guardado prevê um crescimento do PIB de 2% este ano, mas com riscos de inflação persistente. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O crescimento econômico do primeiro trimestre foi puxado pela demanda doméstica, impulsionada por medidas do governo, com efeitos maiores sobre o consumo do que sobre os investimentos, o que é preocupante, segundo a economista-chefe para a América Latina do banco francês BNP Paribas, Fernanda Guardado, ex-diretora do Banco Central (BC). O ritmo não deverá se sustentar. A combinação de uma atividade mais forte com o choque para cima nos preços dos combustíveis, por causa da guerra no Oriente médio, poderá levar o Banco Central (BC) a pausar ciclo de baixa da Selic (a taxa básica de juros, hoje em 14,5% ao ano), iniciado em março, completou a economista. A seguir, os principais trechos da entrevista ao GLOBO. O que os números do PIB mostram? A economia está avançando num ritmo mais modesto do que se observou até 2024 e o início de 2025, em linha com seu potencial, se não um pouco acima, mas cresce muito sustentada pelo consumo das famílias e pelo consumo do governo. No acumulado em quatro trimestres, o consumo das famílias cresceu 1,2% e o consumo do governo, 2,3%, praticamente o dobro. E o investimento está decrescendo. No primeiro trimestre contra o primeiro trimestre do ano passado, ele caiu 1,4%. Por que os investimentos estão em queda? Cenário de investimento está refletindo não só os juros mais altos, mas também desafios e incertezas associados com todos os choques que nós temos observado nos últimos anos. Em 12 meses, o investimento está praticamente parado, com 0,4% de crescimento. Essa composição da demanda é negativa? O que é preocupante nesse tipo de crescimento é que ele sinaliza menos crescimento potencial à frente. Então, é menos sustentável ficar crescendo baseado em consumo. Se não estamos investindo, não teremos capacidade produtiva para atender esse aumento de demanda lá na frente. Certamente, é uma combinação de crescimento circunstancial e temporária, porque nós estamos num momento de juros mais restritivos. O investimento sobre o PIB (a taxa de investimentos) no Brasil atingiu 16,5% no primeiro trimestre, um ponto percentual abaixo do primeiro trimestre do ano passado, que já não era uma maravilha. Se o crescimento é circunstancial e temporário, ele perderá fôlego logo? Ou as medidas de estímulo terão efeito mais duradouro? A nossa projeção é que o consumo vai ser bem sustentado ao longo deste ano. Há uma série de medidas sendo tomadas desde o início do ano, que trabalham no sentido de sustentar o consumo. Por exemplo, a isenção do Imposto de Renda, que aumenta de forma permanente a renda disponível dos consumidores. Um segundo ponto é essa questão do endividamento. Com o aumento da renda disponível, há maior chance de que esse endividamento seja resolvido no Desenrola 2, ao limpar o nome das pessoas e permitir que elas tomem mais crédito. Outro ponto que tem me chamado atenção é a recuperação das concessões de crédito para pessoas físicas, particularmente em veículos e imóveis. O crédito para carros tem se recuperado de forma consistente ao longo deste ano. E teremos a nova linha de crédito para compra de carros por motoristas de táxi e de aplicativos. E o mercado de trabalho? Tivemos indicadores ontem (na quinta-feira) que mostram que há alguma desaceleração no ritmo de criação de vagas, mas, ainda assim, é expansão de emprego, com aumento do rendimento e aumento da renda disponível por causa do corte de Imposto de Renda. Então estão projetando mais crescimento este ano? Temos projeção de 2% de crescimento para o PIB este ano. Eu acho que o dado do primeiro trimestre reforça um viés de alta, porque para atingir a nossa projeção de 2%, basta que os próximos trimestres apresentem um crescimento médio de 0,25% em relação aos trimestres anteriores. Como está vendo o cenário externo, com guerra no Oriente Médio? O que está acontecendo lá fora tem até um impacto líquido positivo para as contas externas do Brasil, porque o país é exportador líquido de petróleo. Temos observado isso nos dados de balança comercial, que seguem muito fortes. As importações estão crescendo de forma mais lenta, compatíveis com a desaceleração no ritmo de crescimento geral da economia, apesar do consumo ainda forte. Como o Brasil é um exportador de commodities (matérias-primas, como soja, minério de ferro e petróleo), uma desaceleração global é menos impactante para a nossa pauta de exportações do que para outros países focados em bens industriais. Com essa atividade mais forte, o BC seguirá cortando os juros (a taxa básica Selic está em 14,5%, após dois cortes desde março)? Temos projeção para a Selic de 13,5% ao ano no fim deste ano. E diria que o viés é de alta, porque há risco de que o BC seja forçado a pausar o ciclo de corte nos próximos meses, até para observar como está sendo o impacto da inflação e da própria atividade com essas iniciativas. E as expectativas de inflação estão desancoradas (no jargão do mercado, significa que se afastam da meta), o que aumenta, junto com um mercado de trabalho muito robusto, a probabilidade de que a sua inflação permaneça alta por mais tempo.
Composição do PIB é preocupante, e juro poderá cair menos, diz ex-diretora do BC
Economista-chefe para a América Latina do banco francês BNP Paribas e ex-diretora do Banco Central (BC), Fernanda Guardado chama a atenção para a fraqueza dos investimentos















