O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, disse, nesta quarta-feira (3), que o Brasil sofre com a ausência de ganhos de produtividade na economia e defendeu que o país precisa se “linkar” às cadeias globais de valor, que têm se beneficiado com as tecnologias de inteligência artificial (IA). Ele palestrou, por videoconferência, em painel do XIX Fórum de Lisboa, o “Gilmarpalooza”, promovido pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) - do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes - pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) e pelo Centro de Inovação, Administração e Pesquisa do Judiciário - FGV Justiça (FGV). Galípolo afirmou que o cenário atual combina uma curva de juros “especialmente bem-comportada” nos EUA com a desvalorização do dólar. Disse que a moeda americana se enfraquece com o movimento de investidores estrangeiros que fazem hedge (proteção) ao investir em renda variável no país americano. “[Os investidores estrangeiros] passam a fazer mais hedge, contratar uma proteção, contra uma desvalorização do dólar. Esse hedge, matematicamente, em posição de mercado, é o equivalente a você estar vendido em dólar, então isso aprofunda a desvalorização do dólar”, disse o presidente do BC. Galípolo disse que o mercado de Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA), por outro lado, não tem sofrido tanto e está “surpreendentemente comportado para a situação fiscal americana e para a tensão geopolítica” global. Segundo o presidente do BC, a explicação para o movimento é o ganho de produtividade proporcionado pela inteligência artificial, que permite uma projeção futura de um cenário com “maior abertura, maior flexibilidade e mercado de trabalho menos apertado”. “Esses ganhos de produtividade vão botar menos pressão sobre a inflação e vão permitir uma política monetária não tão apertada no longo e médio prazo”, disse. O Brasil não está “linkado” com a cadeia global de valor, segundo ele, o que provoca preocupações com a ausência de ganhos de produtividade da economia brasileira. Ele afirmou que o país terá um crescimento menor que 3% em 2026, um patamar mais próximo do potencial. O mercado de trabalho está com taxas de desemprego historicamente baixas e o crescimento da renda está acima da produtividade, com “por estímulo ao consumo baseado no crédito”. “A gente enxerga essas pressões de demanda ali dentro dos indicadores de inflação e é bastante importante a gente pensar nesse desafio mais para o futuro: como é que o Brasil consegue se ‘linkar’ e se ligar de maneira mais eficiente com essas cadeias globais de valor para que a gente possa assistir a um crescimento sustentado e liderado por ganhos de produtividade”, disse Galípolo. O presidente do BC voltou a dizer que o Brasil passou por quatro choque de ofertas nos últimos anos, provocados pela pandemia de covid-19, pela guerra na Ucrânia, pelo choque tarifário dos EUA e pelo conflito no Irã. Declarou que o Brasil estava “relativamente mais bem posicionado” nos últimos dois choques. Para ele, a economia brasileira é vista como ambiente mais protegido, com diferencial de juros altos que oferecem prêmios elevados de remuneração, e que tem autossuficiência com commodities. Ele defendeu também que o arcabouço legal do BC e da política monetária tem se aprimorado e sido reconhecido pelos investidores. “Esse cenário se soma ao que é inusitado, que é a gente vê um sentimento de aversão a risco crescer nas economias globais e muitas economias emergentes terem a sua moeda apreciada”, disse. Galípolo afirmou que os quatro choques têm consequências geopolíticas e nas políticas domésticas para as maiores economias do mundo. O nível de preço subiu um degrau “bastante elevado” em cada um dos choques. Depois de surpresas nos preços, economistas fazem projeções que consideram o passado recente e extrapolam as expectativas para o futuro, segundo ele. No choque de preço mais recente, provocado pela guerra no Oriente Médio, a projeção de juros avançaram “mais do que subiram os preços na maior parte das economias”. O presidente do BC disse ter ouvido de agentes financeiros internacionais que esse movimento está associado a uma “memória muscular” provocada pelos sucessivos choques. O presidente do BC afirmou que, para a população, é produzida uma “dissonância” entre os números oficiais e o que é o sentimento de vida dela. Para ele, há uma divergência entre o mandato da autoridade monetária, de levar a inflação para o centro da meta, e o sentimento das pessoas, que é impactado pelo nível de preços. Galípolo disse que há um “enfraquecimento” dos indicadores tradicionais que medem o bem-estar das pessoas. “O nível de preços, a cada choque de oferta, sobe um degrau mais rápido”, disse. “Se a renda não cresceu na mesma velocidade do nível de preços, a sensação das pessoas é que tudo ficou mais caro, porque, com a mesma renda que elas recebem, elas conseguem comprar menos coisas”, acrescentou. O presidente do BC acrescentou que o “índice de miséria” (ou índice de bem-estar), métrica macroeconômica que soma a taxa de inflação acumulada e a taxa de desemprego, está no nível mais baixo da história no Brasil. Outros países também estão em “situação mais favorável” com esse indicador, o que, segundo ele, nem sempre tem se revertido no sentimento mais benéfico sobre a situação econômica. Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central — Foto: Raphael Ribeiro/BCB
Galípolo: Cenário atual combina curva de juros especialmente bem-comportada nos EUA com queda do dólar
Presidente do BC diz também que Brasil precisa se “linkar” às cadeias globais de valor, que têm se beneficiado com as tecnologias de inteligência artificial
Galípolo (BC): Brasil carece de produtividade em IA e conexão com cadeias globais; crescimento <3% em 2026. Pressão de demanda sem produtividade força juros altos, elevando custo de capital e impactando investimento em tech das empresas.












