Juros x Inflação: Entenda a relação entre eles Crédito: Larissa Burchard/Laís NagayamaGerando resumoFoto: Wilton Junior/Estadão Solange SrourDiretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management A diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour, diz que os riscos inflacionários globais e domésticos se avolumam e avalia que o Banco Central deveria adotar cautela após um corte de 0,25 ponto porcentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), abrindo espaço para pausar e “esperar para ver” a evolução do cenário. No campo fiscal, Srour vê uma herança “muito pior” para quem vencer a eleição presidencial e teme que a “lista de bondades” cresça, impulsionada pelo Executivo e pelo Congresso.Para a economista, a inércia de 2026 deve pesar sobre 2027 — horizonte relevante para a política monetária —, de modo que qualquer governo já carregará uma inflação maior do que a prevista, em um ambiente marcado por juros globais mais altos, o que dificulta a queda do juro real sem mudança de regime e choque de credibilidade.A seguir, os principais trechos da entrevista:A pressão subiu no mercado internacional recentemente, com forte alta dos juros globais na última semana. Por quê?Apesar de o mercado estar otimista com a inteligência artificial, existe uma preocupação grande — ainda não expressa nos preços — com a inflação, dado que a guerra está longe de terminar e o fiscal também pesa. Nos Estados Unidos, há discussão sobre alívio tarifário e subsídio ao gás, com perspectiva de gastos maiores. Soma-se a isso a possível mudança política na Inglaterra, com a questão fiscal muito presente, e inflação mais alta no Japão. Nos EUA, nos juros, a discussão é: manutenção ou viés de alta? Há a questão do início do mandato de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve. Se ele não mostrar preocupação com o risco inflacionário, afetará a credibilidade.PublicidadeHouve alguma mudança na percepção sobre os EUA? Uma rotação de investimentos por lá beneficiou o Brasil, mas nas últimas semanas parece que esse fluxo reverteu um pouco, com a IA e o trade eleitoral. Mudou o custo de oportunidade de investir no Brasil?Não vejo mudança no que é estrutural: diversificar, num mundo mais desglobalizado e geopoliticamente mais complicado. Isso gerou fluxo relevante para emergentes, que não terminou. Em alguns momentos, pode haver busca por segurança, com a escalada da guerra. Dentro de emergentes, o Brasil pode perder espaço porque, quanto mais perto chega a eleição, mais o mercado percebe que ela pode ser um divisor de águas para sustentabilidade e juros. Mas Taiwan e Coreia do Sul continuam a receber fluxo porque são histórias ligadas à IA. No médio e longo prazos, o investidor buscará diversificar por localidade e moeda.'A inércia de 2026 pesa muito para 2027: qualquer governo vai carregar inflação contratada de 2026 maior do que imaginávamos no início do ano', diz Solange Sour Foto: Wilton Junior/EstadãoO Brasil chegou a perder o brilho para o investidor ou outros países ganharam brilho?Não vejo o Brasil perdendo brilho agora. Para o investidor estrangeiro, a eleição está longe. E o Brasil fornece commodities agrícolas, energia, terras raras — o mundo vai precisar disso nos próximos anos. Agricultura é importante num mundo geopoliticamente mais complicado; minerais e energia, ainda mais, por guerra e por IA. No curto prazo, pode haver turbulência política que traga a eleição para o preço. Acho que outros países ganharam mais peso pela história do momento, especialmente a Ásia. Mas a questão estrutural de commodities fica: o Brasil é diversificado, e isso não vai mudar. O ponto é capitalizar isso; para isso, o cenário macro importa muito, e 2026 e a eleição serão relevantes.O conflito no Irã e o virtual fechamento do Estreito de Ormuz estão quase completando três meses. Qual o balanço e a perspectiva?Nunca esperei que o conflito terminasse rapidamente. A expectativa é de que o aumento do preço do petróleo — e não só petróleo: gás, fertilizante, insumos críticos para IA - comece a afetar a inflação. Se a guerra se estender por mais meses, o impacto pode ser maior; se passar de julho, pode haver impacto mais significativo em commodities e, em algum momento, isso pega o crescimento. Nos EUA, há expectativa de melhora no fim de junho ou início de julho, por algum acordo para reabrir Ormuz, porque é verão e viagens, transporte e passagens devem subir. E o consumo tem sido resiliente, porque houve o alívio tarifário do Big Beautiful Bill, que contrabalançou a gasolina, mas isso vai acabar. Se o cenário não melhorar em julho, a inflação piora e fica a questão de como Warsh vai impedir a alta das expectativas de inflação com a credibilidade sendo testada — por ter sido indicado pelo presidente do país e por ter sido duro no passado, o mercado quer saber se continua ou se mudou.No Brasil, o que a sra. espera para a política monetária neste ano?O cenário está incerto. Pela comunicação do Banco Central, é muito difícil não cortar na próxima reunião: 25 pontos-base (0,25 ponto porcentual), a menos que algo muito diferente ocorra. Depois, deveriam deixar mais aberta a possibilidade de parar. Hoje a barra para parar na comunicação está alta; o BC tem se mostrado confortável com os efeitos da política monetária e com o nível restritivo. Com expectativas de inflação subindo, não é verdade que a política esteja tão restritiva: quando as expectativas sobem, o juro real esperado cai. Se a guerra se prolongar, na minha avaliação, deveriam parar. Se vão parar, é outra questão. Os riscos inflacionários globais e domésticos estão se avolumando e o BC poderia fazer uma pausa e esperar — como lá fora, “wait to see”.PublicidadeO que pode fazer o BC mudar de posição: petróleo, núcleos de inflação, expectativas?As expectativas de inflação de prazo mais longo parecem ser a maior preocupação do BC. Ele não mudou o balanço de riscos, mas detalhou que para 2028 começaram a ser afetadas. Acho que 2027 é um problema maior, porque o horizonte relevante é meados de 2027 e deve se mexer mais. Tenho sido crítica por não ter mudado o balanço de riscos: manter a queda de commodities como fator de baixa parece fora do contexto. Se a queda vier por desaceleração da demanda, é efeito de segunda ordem e não deveria ser baixista. Se vier por choque de oferta, é inflacionário. No mundo inteiro falamos de commodities mais altas; não faz sentido isso ser risco de baixa no Brasil. Parece que, para o BC, o canal é a expectativa mais longa, que ajusta mais devagar — até porque ninguém sabe o governo de 2028. O que eu sei é que a inércia de 2026 pesa muito para 2027: qualquer governo vai carregar inflação contratada de 2026 maior do que imaginávamos no início do ano.Vou ser dura: a solução é uma crise, porque o Brasil só faz reforma quando tem crise. Quando a taxa de câmbio está a R$ 5, não tem reformaO cenário eleitoral já entrou no preço?Está entrando na volatilidade. Vamos ficar mais reféns do noticiário político. É difícil ‘entrar no preço’ porque é uma eleição muito disputada; a incerteza é grande e é difícil ter convicção. A popularidade do governo voltou a subir, ou parou de cair, e isso não tem a ver com a guerra, mas com medidas anunciadas, que demoram a sensibilizar a população. Como a disputa começou de fato, o mercado deve ficar muito mais volátil.A popularidade parar de cair pode levar a aumento do pacote de bondades do governo?Essa lista só vai crescer. Não é só o Executivo, é o Congresso também: está em eleição e quer trazer boas notícias. Mudança em limites do Simples e do MEI (microempreendedor individual) é pauta bomba: negativa para a arrecadação e ruim para produtividade. É popular e tem chance de passar. As demandas do Congresso são muito altas. Vamos ver coisas negativas para o fiscal com efeitos persistentes. Aumentar limite do Simples ou mudar MEI é difícil de reverter. A Previdência já está quebrada; vai precisar de outra reforma. Temo que a lista aumente independentemente da popularidade. Quanto mais perto, mais expansão fiscal e, mesmo onde a lei impede, estímulos fora do arcabouço (fiscal, mecanismo de contenção de gastos do governo). No fundo, o próximo governo vai receber uma herança muito pior do que imaginávamos no fim do ano passado.Leia também‘Ajuste fiscal não é uma dor, é uma solução’, diz Ana Paula Vescovi, ex-TesouroBrasil vai ter de partir para uma terapia de choque na área fiscal, diz Bráulio BorgesDificuldade é arrumar alguém que esteja disposto a bancar o ajuste fiscal, diz SchwartsmanO ajuste fiscal em 2027 é inevitável?O cenário piorou por dois motivos: primeiro, o nível de expansionismo ao fim de 2026 será maior do que esperávamos; talvez não mude muito a dívida/PIB de 2026, mas piora as projeções adiante. Em segundo lugar, a perspectiva de juros globais mais altos aumentou: guerra, expansionismo fiscal em outros países, bancos centrais precisando construir credibilidade. Então o próximo governo terá um problema maior: como construir confiança para estabilizar a dívida. Mesmo para estabilizar, precisa de choque de confiança, porque o nível e o juro global estão mais altos. Teria de mostrar um choque ao longo dos anos de 3,5% a 4% do PIB. Num estudo nosso, com choque de confiança parecido com teto + 2018 + Previdência, o juro real de 10 anos poderia cair 200 pontos: na NTN-B, de 7,5%, poderia ir a 5,5%. Ainda não estabiliza a dívida/PIB, mas o governo ganha tempo. Sem mudança de regime, o legado de 2026 e o novo mundo não deixam o juro real cair de verdade.PublicidadeO que é um projeto confiável de redução da dívida/PIB, se teto é politicamente inviável? Como resolver o impasse?Vou ser dura: a solução é uma crise, porque o Brasil só faz reforma quando tem crise. Quando a taxa de câmbio está a R$ 5, não tem reforma. Se o próximo presidente ganhar com cenário global favorável, não vai ter reforma, seja quem for, porque não há pressão no Congresso. A política é movida pela sensação de que, se o câmbio está valorizado, a Bolsa não está despencando e a economia está crescendo, está tudo bem; dá até para esticar mais a corda. É o que estamos vendo.
Entrevista | Riscos aumentam e BC pode pausar corte de juro após junho, diz Solange Srour, do UBS GWM
No campo fiscal, a diretora de macroeconomia para o Brasil vê uma herança ‘muito pior’ para quem vencer a eleição presidencial e teme que o Executivo e o Congresso alonguem a ‘lista de bondades’












