Governo Trump anunciou designação do PCC e do Comando Vermelho como terroristas globais e pretende incluí-los na lista estrangeira a partir de 5 de junho PM em comunidade com pichações do Comando Vermelho e viaturas incendiadas durante ataques do PCC em 2006 — Foto: Arquivo / Thiago Bernardes/Diário de São Paulo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 17:30 EUA Declaram PCC e Comando Vermelho como Terroristas: Impactos no Brasil Os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, com implicações severas para o Brasil. Sob essa designação, agências como a CIA e o FBI podem intensificar investigações e operações contra essas facções. O sistema financeiro, incluindo o Pix, está sob vigilância rigorosa, com riscos de sanções a instituições que facilitem transações ligadas a essas organizações. Essa medida visa sufocar financeiramente as facções e reforçar a cooperação criminal entre os países. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou na quinta-feira (28) que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passam a ser classificados como organizações terroristas pelo governo americano. A medida, anunciada um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado Marco Rubio, é dupla e escalonada, com uma designação que já tem força de lei, e outra que entra em vigor no dia 5 de junho. As duas classificações, de Terrorista Global Especialmente Designado (SDGT) e de Organização Terrorista Estrangeira (FTO), são instrumentos jurídicos distintos com consequências complementares. A primeira, gerida pelo Departamento do Tesouro, mira o dinheiro com o congelamento de ativos e corte do acesso ao sistema financeiro em dólar. A segunda, prerrogativa exclusiva do secretário de Estado, vai além ao criminalizar qualquer forma de apoio às organizações listadas e transferir o combate às facções para uma esfera jurídica muito mais abrangente do que a segurança pública convencional. Ao inserir as facções nas listas do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) e sob o rigor do código penal americano, os EUA impõem um cerco que vai da asfixia do dinheiro lavado na economia formal à criminalização do apoio logístico. Abaixo, os principais pontos sobre o que muda na prática. Investigações e cooperação criminal A designação como FTO retira o combate ao PCC e ao CV do registro estrito da segurança pública e o insere em um universo jurídico mais amplo, com instrumentos mais poderosos. Novos atores: Com a classificação, agências como a CIA e o Pentágono passam a ter autorização legal para tratar as facções brasileiras como alvos de inteligência e, em tese, de operações militares, o mesmo enquadramento que os EUA usaram para justificar ações em outros países após designações semelhantes. Na prática, isso significa que o combate às facções pode deixar de ser exclusividade de policiais e delegados e passar a envolver estruturas de espionagem e contraterrorismo americanas. Investigações: Órgãos como o FBI e a DEA ganham acesso a instrumentos jurídicos que aceleram investigações, facilitam prisões e permitem processar integrantes das facções em cortes federais americanas, mesmo por atos cometidos fora dos EUA. Passa a ser crime federal fornecer qualquer tipo de apoio material às organizações: dinheiro, armas, logística, treinamento ou consultoria especializada. A pena pode chegar a 20 anos de prisão. Cooperação: O saldo para o Brasil nesse quesito depende de como Washington decidir conduzir o processo. No cenário mais favorável, as autoridades americanas compartilham com a Polícia Federal e o Ministério da Justiça as informações que obtiverem sobre redes financeiras, rotas de tráfico e membros das facções, ampliando a capacidade investigativa brasileira. No cenário menos favorável, os dados passam a ser classificados como secretos, reduzindo o fluxo de inteligência em vez de ampliá-lo. Mapa mostra expansão do CV e PCC pelo mundo — Foto: Reprodução/O GLOBO Dinheiro, bancos e economia É no sistema financeiro que os efeitos tendem a ser mais imediatos e mais difusos, atingindo não apenas as facções, mas empresas e instituições que nunca tiveram contato direto com elas. O Pix na mira: O Pix, sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, pela sua capilaridade e pelo volume de transações que hoje supera qualquer outro meio de pagamento do país, também está no radar dos departamentos de compliance. Com a nova classificação, fintechs e bancos digitais que processem transações para pessoas ou empresas com vínculos às facções podem se enquadrar nas sanções secundárias do OFAC. O gatilho não é a moeda nem a geografia da operação: é a conexão com uma organização agora listada como terrorista pelos EUA, independentemente de a transação ter ocorrido inteiramente em reais e em território brasileiro. Bloqueio de ativos: Qualquer bem, conta ou propriedade ligada ao PCC e ao CV em território americano ou sob controle de instituições dos EUA é automaticamente congelado.O mesmo vale para empresas de fachada e laranjas identificados pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Tesouro americano. Bancos e fintechs: Instituições financeiras brasileiras que processem transações vinculadas a esquemas de lavagem de dinheiro das facções podem ser proibidas de manter contas correspondentes nos EUA, o que equivale ao banimento do sistema financeiro global em dólar. Para evitar essa penalidade, departamentos de compliance precisarão revisar carteiras inteiras de clientes, o que tende a acelerar o chamado de-risking, com o encerramento preventivo de contas de empresas legítimas que operem em setores considerados de alto risco. Vista aérea do porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina — Foto: Nelson Almeida/AFP Afastamento de capital estrangeiro: Empresas brasileiras como frigoríficos, bancos e fintechs, se eventualmente aparecem em alguma operação ligada ao crime organizado, correm o risco de terem seus bens bloqueados e seus negócios cortados.Segundo Felipe Sant'Anna, especialista de investimentos da Axia Investing, as empresas americanas podem ser cobradas pelo governo americano: se negociarem com alguém no Brasil que tenha algum vínculo com a organização criminosa, serão consideradas cúmplices, o que pode provocar um movimento de retirada de dinheiro do país por cautela Setores em alerta: A capilaridade das facções na economia formal expõe setores específicos a um risco que vai além das multas regulatórias locais. Investigações recentes mostraram infiltração do crime organizado em licitações municipais, frotas de transporte público e contratos de zeladoria em metrópoles como São Paulo. No Porto de Santos, maior complexo portuário do Hemisfério Sul, as apreensões de cocaína destinada à Europa, à África e à Oceania caíram 75% entre 2019 e o ano passado — de 27 para menos de 7 toneladas, segundo dados da Polícia Federal —, não por redução do tráfico, mas pela sofisticação das rotas. Para operadores portuários, aeroportuários e empresas de logística, o trânsito de uma carga inadequadamente inspecionada pode ser enquadrado como facilitação a uma organização terrorista estrangeira.O precedente mais próximo está no México: em fevereiro de 2025, os EUA aplicaram as mesmas designações a oito organizações criminosas latino-americanas, incluindo seis cartéis mexicanos. Multinacionais precisaram redesenhar auditorias completas para provar que nenhum centavo de suas operações havia sido repassado como pedágio ao crime organizado. Soberania e pressão geopolítica Brecha para ação militar: A classificação como organização terrorista estrangeira abre, em tese, espaço jurídico para que as Forças Armadas americanas conduzam operações no Brasil sob o argumento do combate ao terrorismo, como abater aeronaves suspeitas ou interceptar embarcações em águas internacionais. Não há nada que obrigue o Brasil a autorizar tais operações, mas a experiência de outros países mostra que a designação pode ser usada como justificativa para ações unilaterais. Agentes da PM-RJ em operação policial em área de atuação do CV — Foto: Márcio alves/19-9-2018 Vistos e restrições de viagem Os efeitos da classificação podem alcançar também brasileiros comuns, mesmo aqueles sem qualquer envolvimento com o crime organizado. Integrantes das facções: Membros do PCC e do CV com conexões comprovadas podem ter vistos negados ou cancelados, ficando sujeitos à expulsão imediata ou à prisão ao tentar entrar em território americano.Risco para civis: O impacto sobre a população sem vínculo com as facções é uma incógnita que preocupa especialistas. Brasileiros que vivem em regiões dominadas pelo crime organizado — e que, portanto, podem ter alguma conexão indireta com estruturas das facções apenas por sua geografia — correm o risco de ter pedidos de visto negados ou dificultados, mesmo sem qualquer envolvimento com atividades criminosas.