Classificação de PCC e CV não é técnica e tem peso político, afirma Guga Chacra em newsletter especial Muro pichado por integrantes do Comando Vermelho em Barra Mansa, no interior do Rio — Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 06:43 EUA Classificam PCC e Comando Vermelho como Organizações Terroristas O Departamento de Estado dos EUA classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, decisão que Guga Chacra afirma ter peso político e subjetivo. Nos EUA, a definição de terrorismo envolve ações violentas contra civis por causas políticas ou ideológicas. A designação de terroristas pode mudar conforme interesses geopolíticos, como ocorreu com grupos no Oriente Médio. No Brasil, não há lista própria de grupos terroristas, seguindo resoluções da ONU. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Desde a eclosão da guerra no Irã, Guga Chacra escreve newsletter diária com informações e análises exclusivas. Clique aqui para se inscrever. O Departamento de Estado dos EUA designou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Não se trata de uma designação técnica ou acadêmica. A decisão sempre tem um peso político. Há uma influência da política externa do governo quando é determinado que um grupo é, ou deixa de ser, terrorista. A classificação envolve muita subjetividade. Normalmente, terrorismo é definido como uma ação violenta contra civis com finalidades políticas ou ideológicas. Embora seja algo que permita nuances, tendo a concordar com essa forma de definir as organizações. Quando o terrorismo é óbvio – Quando um homem-bomba se explode em um casamento para promover uma causa, é terrorismo. Quando um grupo de pessoas invade uma casa de shows e dispara contra a banda e o público por uma causa, também é terrorismo — independentemente de você concordar ou não com a causa defendida pelo grupo. Um basco de Bilbao nos anos 1990 podia defender a causa da independência da nação basca, mas sem apoiar as ações terroristas do ETA em Madri. Defenderia a causa, mas não o terrorismo. Caso defendesse um ataque contra civis para defender essa política, poderia ser classificado como apoiador do terrorismo. Exemplo de atentado – Para usar um exemplo mais recente, a imensa maioria da comunidade internacional defende o direito de os palestinos terem um Estado independente e o fim da ocupação israelense da Cisjordânia e de Gaza. Mas o ataque de 7 de outubro de 2023 foi terrorista por alvejar civis israelenses dentro do território reconhecido internacionalmente como Israel. Não há discussão sobre isso. Insurgência – Ataques contra alvos militares em territórios ocupados costumam ser classificados como insurgência, e não terrorismo. Por exemplo, um iraquiano ou um afegão atacar um militar dos EUA durante a ocupação dos seus respectivos países seria insurgência, não terrorismo. Eles estavam em seu território lutando contra invasores armados. Guerrilha ou terrorista? – O Hezbollah costuma ser classificado como terrorista por causa de seus atentados contra adversários políticos civis libaneses dentro do Líbano e por atentados contra a embaixada de Israel em Buenos Aires em 1992 e contra a AMIA, uma entidade judaica, também na capital da Argentina em 1994. Já na atual guerra contra Israel, o grupo atua como guerrilha convencional. Escrevi sobre isso aqui no GLOBO. Al-Qaeda e Trump – Os EUA também costumam retirar a designação de terrorista quando é de seu interesse. Ahmed al-Sharaa, atual governante da Síria, liderou o braço sírio da organização terrorista al-Qaeda. O grupo mudaria de nome e passaria a ser chamado de Hayat Tahrir al-Sham, também classificado como terrorista pelo Departamento de Estado. O próprio al-Sharaa era designado como terrorista pelos EUA. Mas, por questões geopolíticas, Donald Trump decidiu recebê-lo na Casa Branca depois que ele derrubou a ditadura de Bashar al-Assad em 2024. Para isso, tanto a designação de terrorista do grupo quanto a de al-Sharaa foram retiradas. Os grupos no Brasil – O PCC e o Comando Vermelho são organizações criminosas e violentas. Mas não têm aparentemente uma agenda política clara. Podem sim apoiar diferentes grupos políticos por interesses econômicos. Como uma máfia, matam inimigos em ações que se parecem com atentados terroristas. São ataques violentos, chacinas, massacres, assassinatos. Mas terrorismo? Somente se matarem para avançar uma ideologia. Até onde eu sei, essas organizações não são ideológicas. Isso não implica que defendam uma causa política, como a independência de um povo ou o estabelecimento de um califado. Tampouco há vítimas claras. Pegue o exemplo do próprio Hayat Tahrir al-Sham na Síria, que focava seus ataques em minorias religiosas como cristãos de diferentes denominações, alauítas e drusos. Posição brasileira – O Brasil opta por não fazer uma lista de organizações que considera terrorista. Opta por seguir determinações de resoluções da ONU. Outros países atuam da mesma forma. Ao mesmo tempo, há uma série de nações que costumam fazer essas designações, como os EUA. Para deixar claro, aqui escrevi sobre organizações terroristas. Também há acusações de países que apoiam o terrorismo. Mas trata-se de um outro tópico.