Por décadas, o debate público brasileiro tratou a saúde como um tema restrito aos hospitais, às consultas médicas e ao acesso a medicamentos. No entanto, basta atravessar os territórios periféricos das grandes cidades para compreender que o adoecimento começa muito antes da entrada em uma unidade de saúde. Ele nasce, frequentemente, na própria experiência urbana.

Em Salvador, essa realidade aparece de forma contundente no Subúrbio Ferroviário, região historicamente marcada pela desigualdade territorial, pela precarização da infraestrutura urbana e pela presença seletiva do poder público. Ali, a saúde não pode ser pensada separadamente da mobilidade, da moradia, do saneamento básico, da violência urbana e das desigualdades raciais que estruturam a cidade.

No bairro de Praia Grande, dona Rosângela*, 57 anos, técnica de enfermagem há mais de três décadas, conhece de perto os impactos desse processo. Trabalhadora da saúde e moradora da periferia, ela descreve um cotidiano atravessado pelo desgaste físico e emocional produzido pela própria dinâmica urbana:

“Tem dia em que a gente sai de casa já cansada. Não é só o trabalho. É o transporte cheio, o medo, o tempo gasto no deslocamento, a preocupação constante. O corpo vai sentindo.”