“Eu me preocupava com a propriedade, mas estava esquecendo da minha saúde. Não sabia, mas estava fraquejando e morrendo aos poucos”, conta o produtor de leite Adonisio dos Santos, conhecido na comunidade rural de Queimadas, no interior da Bahia, como Seu Dodô. Com uma rotina diária que costuma começar antes do nascer do sol e terminar apenas quando o trabalho do dia está concluído, a saúde de quem lida com a terra frequentemente fica em segundo plano. Para enfrentar essa realidade surgiu o programa Saúde no Campo, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), iniciativa que leva orientação, prevenção e acompanhamento de saúde diretamente às propriedades rurais. O caso de Seu Dodô foi um dos mais emblemáticos para o médico Renilson Rehem, diretor de Saúde e Promoção Social do Senar: o produtor rural descobriu que era hipertenso e diabético após receber acompanhamento dos técnicos do Senar. "Nossa técnica foi trabalhando com ele, mostrando a importância dos cuidados com a saúde e incentivando mudanças na rotina. Ele estava obeso, descobriu que era hipertenso e diabético. Em menos de um ano, a vida daquela família mudou completamente", relata o médico. Quando criamos o programa de Assistência Técnica e Gerencial do Senar vimos que muitos produtores rurais e seus familiares não tinham acesso, não tinham o amparo e a assistência adequada na área de saúde. O Sistema CNA/Senar está dando uma colaboração importante para reduzir os problemas de saúde no meio rural Com o acompanhamento contínuo, vieram mudanças de hábitos e uma nova percepção sobre a importância do autocuidado. “Ela passou a nos orientar, passo a passo, com muita paciência. Sem saúde, como vamos cuidar dos animais e produzir na roça? Não tem como fazer”, relata Seu Dodô, que hoje acredita que a transformação alcançou toda a família: “Se o Senar não chegasse com seus técnicos, eu estaria nadando e morrendo na praia. O Senar ainda vai chegar na casa de muitos produtores e mudar a vida deles, como mudou a minha.” A técnica de saúde Ana Carla Lima, que acompanha a família, também destaca o impacto do programa. “Sou muito grata por esse programa. Mudou minha vida e quero continuar contribuindo com ele por muitos anos.” Impacto na geração de renda O Saúde no Campo busca aproximar os serviços de saúde das famílias rurais e estimular uma mudança de cultura entre produtores que, muitas vezes, adiam cuidados médicos por não quererem interromper o trabalho. “Principalmente entre os pequenos produtores, a família é a própria mão de obra. Se alguém da família está doente, isso compromete a própria geração de renda”, afirma Rehem. Entre as prioridades do programa estão a prevenção e o diagnóstico precoce de diabetes e hipertensão, doenças silenciosas que podem provocar complicações graves, como AVC, insuficiência renal e perda da visão. Além das orientações de saúde, as famílias atendidas podem contar com teleconsultas com clínicos gerais, pediatras, psicólogos, e encaminhamento para a rede pública quando necessário. “Muitas pessoas convivem com doenças sem saber. O problema é que, sem diagnóstico e acompanhamento as consequências podem ser graves. Metade das pessoas que têm diabetes ou hipertensão não sabem que possuem a doença. Se não sabem, não cuidam”, explica Rehem. Em apenas um ano de atuação, o Saúde no Campo alcançou mais de 55 mil pessoas em 25 estados brasileiros, chegando a 827 municípios e 18,6 mil propriedades rurais. Técnicos de saúde rural visitam regularmente as propriedades para desenvolver ações de prevenção, educação em saúde, acompanhamento de condições crônicas e incentivo à adoção de hábitos saudáveis. Cada profissional acompanha até 30 propriedades rurais, realizando atendimentos individuais e coletivos voltados aos produtores, familiares e trabalhadores que vivem nas fazendas. O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, fala sobre a necessidade de ampara aos produtores: “Quando criamos o programa de Assistência Técnica e Gerencial do Senar vimos que muitos produtores rurais e seus familiares não tinham acesso, não tinham o amparo e a assistência adequada na área de saúde. O Sistema CNA/Senar está dando uma colaboração importante para reduzir os problemas de saúde no meio rural.” O produtor catarinense Luiz Magro agora usa chapéu e roupas de proteção sob o sol — Foto: Reprodução Iniciativa chegou junto com a esperança Em Arroio Trinta, no interior de Santa Catarina, o produtor de frutas Luiz Magro descobriu que alguns hábitos considerados normais ao longo da vida poderiam representar riscos importantes para sua saúde. Durante as visitas realizadas pela técnica em saúde Natani Zamboni, foram identificadas situações que exigiam acompanhamento médico e medidas preventivas relacionadas à exposição excessiva ao sol. Como milhares de trabalhadores rurais, Luiz passava horas ao ar livre sem utilizar equipamentos adequados de proteção. A partir das orientações recebidas, ele adotou novos cuidados e iniciou o tratamento necessário. “Não me cuidava, não passava protetor. Agora eu vi que não é assim que se faz. Com a ajuda da técnica, no dia a dia, estou me protegendo com chapéu de aba, roupas de proteção e não me exponho tanto ao sol como antes. Fiquei muito contente com isso, consegui o tratamento e vou ficar bem”. Casos como o de Luiz mostram uma das principais frentes do Saúde no Campo: a prevenção. Ao identificar precocemente fatores de risco e incentivar mudanças de comportamento, o programa contribui para evitar o agravamento de doenças e ampliar a qualidade de vida dos trabalhadores rurais. Rogério e Alceri, de Rio Pardo (RS): apoio para reconstruir a vida após a enchente — Foto: Reprodução Em algumas regiões, o programa assumiu ainda outro papel: ajudar famílias a reconstruírem suas vidas após situações extremas. Foi o que aconteceu com o casal Rogério dos Reis Pereira e Alceri Pereira, produtores rurais de Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. As enchentes que atingiram o estado destruíram propriedades, comprometeram a produção agrícola e deixaram milhares de famílias em situação de vulnerabilidade. Após receber apoio emergencial por meio do programa SuperAção Agro Rio Grande do Sul, o casal passou a ser acompanhado pelo Saúde no Campo. “Recebemos cesta básica, apoio com os animais. Para nós foi uma ajuda e tanto porque não tínhamos como nos manter”, conta Alceri. Mais do que assistência imediata, os atendimentos ajudaram a família a enxergar novas perspectivas para o futuro. “A gente adquiriu uma visão melhor do futuro com a ajuda do Senar. Um futuro melhor.” A técnica em saúde Daniela Rosa acompanha diversas famílias afetadas pelas enchentes e destaca que o trabalho desenvolvido vai muito além dos atendimentos convencionais. “São pessoas que não tinham e precisavam de orientações. Criamos um vínculo bonito e produtivo nessa propriedade.” Entre os resultados observados até agora, um chamou atenção até mesmo de profissionais experientes: a dimensão dos problemas relacionados à saúde mental no meio rural. Com cinco décadas de atuação na área da gestão em saúde, Rehem admite ter sido surpreendido pelo número de relatos envolvendo ansiedade, depressão e sofrimento emocional. “A gente romantiza muito a vida no campo. Acha que é a natureza, o cantar dos pássaros e o nascer do sol. Mas a vida no campo é dura”, afirma o médico. Segundo ele, as dificuldades financeiras, as perdas provocadas por secas e enchentes, o endividamento, os conflitos familiares e as incertezas da atividade rural geram uma carga emocional significativa para milhares de produtores. Um novo desafio para o Senar Para o diretor-geral do Senar, Daniel Carrara, os resultados alcançados até agora demonstram que o caminho adotado está produzindo impactos concretos na vida das famílias rurais. “Somos referência na formação inicial, no ensino técnico, na educação à distância e na assistência técnica e gerencial. O desafio agora é ser referência na área de saúde, não só para o setor rural, mas para o país. Acho que conseguimos atingir esse objetivo. O setor rural precisa e merece”, explicou. Nos próximos anos, o Senar pretende ampliar ainda mais a presença do Saúde no Campo e consolidar indicadores capazes de medir os resultados da iniciativa. “Entre as metas estão aumentar o número de produtores diagnosticados e com diabetes e hipertensão sob controle, aprofundar o entendimento sobre os problemas de saúde mental no meio rural e fortalecer as ações de prevenção ao câncer. A preocupação inclui especialmente os casos de câncer de pele, bastante frequentes entre trabalhadores expostos ao sol, além dos cânceres de mama, colo do útero e próstata”, explicou o médico Renilson Rehenm. A expectativa é que os primeiros resultados consolidados possam ser mensurados nos próximos dois ou três anos. Conheça mais sobre o Saúde no Campo e as histórias de quem teve a vida transformada pelo programa no vídeo acima!