O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) criticou a forma como a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos entrou no debate político brasileiro. Em nota de posicionamento, a entidade afirmou que a decisão do governo americano é soberana, mas avaliou que o tema foi “capturado pela disputa eleitoral”. Segundo o FBSP, a medida diz respeito à forma como os EUA pretendem lidar, “em seus termos jurídicos e legais”, com as conexões e os impactos transnacionais dessas organizações criminosas. A entidade, porém, disse lamentar que um assunto com “implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na sua economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional” tenha sido tratado como solução para um problema mais complexo. O Fórum afirmou que Brasil e Estados Unidos têm uma “longa tradição de cooperação policial” e atuam de forma coordenada há décadas, especialmente na troca de informações de inteligência e no combate à lavagem de dinheiro. Para a entidade, essa cooperação deve prosseguir. O Fórum acrescenta ainda que o apoio de políticos à classificação das facções criminosas como organizações terroristas demonstra “visões reducionistas e descoladas das reais tarefas que o Poder Público precisa colocar em prática” para enfrentar o crime organizado. Entre essas tarefas, o Fórum cita a retomada de territórios e a regulação de mercados e setores usados pelo crime organizado, como fintechs, bets e criptoativos. A entidade não detalha, na nota, medidas específicas para esses segmentos, mas os menciona como parte da agenda de enfrentamento econômico e financeiro às facções. A referência do FBSP aos criptoativos aparece em um contexto em que esses instrumentos têm surgido com mais frequência em apurações sobre lavagem de dinheiro e outros crimes no país. Os ativos digitais foram identificados em investigações sobre diferentes tipos de crime, incluindo lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, violações de direitos humanos e crimes ambientais e online. Casos recentes também encontraram bitcoin e stablecoins em apurações da PF sobre ataques à infraestrutura do Pix no Banco Central, que desviaram R$ 1,5 bilhão, e um esquema de lavagem que teria movimentado R$ 12,2 bilhões entre 2017 e 2020. O volume apreendido, no entanto, ainda é pequeno quando comparado ao tamanho do mercado formal. Mais de R$ 505 bilhões em transações com criptoativos foram declarados à Receita Federal no Brasil no ano passado. Não há, porém, uma estimativa oficial sobre quanto desse total pode estar relacionado a recursos de origem ilícita. Dados da Chainalysis, empresa de monitoramento de criptoativos, indicam que carteiras digitais com histórico ligado a atividades ilegais receberam US$ 154 bilhões em 2025, cerca de 1% do volume transacionado globalmente no período. A própria PF reconheceu que seu levantamento tem limitações, já que não inclui apreensões anteriores a 2023 nem ativos recuperados por polícias civis. No Brasil, o setor de criptoativos ainda está em fase de construção regulatória, sob responsabilidade do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No fim do ano passado, o BC publicou normas para regulamentar a Lei de Ativos Virtuais de 2022, incluindo regras de prevenção à lavagem de dinheiro, combate ao financiamento do terrorismo e transparência para prestadoras de serviços de ativos virtuais.