Amplitude da medida pode ter impactos no mercado financeiro, pela possibilidade de sanções diante da infiltração do crime organizado em setores formais da economia Agentes da PM-RJ em operação policial em área de atuação do CV — Foto: Márcio alves/19-9-2018 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 28/05/2026 - 22:59 Classificação de CV e PCC como terroristas agita cenário político brasileiro Os EUA classificaram o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, medida que agitou a pré-campanha de Flávio Bolsonaro e surpreendeu o governo Lula. A decisão pode afetar o mercado financeiro e as relações diplomáticas, além de se tornar um trunfo eleitoral para Flávio, que busca associar-se ao endurecimento contra o crime organizado e ao trumpismo. O governo Lula, que se opôs à medida, teme consequências econômicas e riscos à soberania nacional. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em uma decisão que movimenta o cenário eleitoral e tem potenciais reflexos econômicos e diplomáticos, os Estados Unidos anunciaram ontem a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A mudança ocorreu dois dias após a visita do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Casa Branca, quando apresentou o pleito ao presidente Donald Trump. O governo Lula vinha atuando há meses contra a medida e ainda calibra o tom da reação, por temor da pecha de “defensor de bandidos”, mas o assessor da Presidência Celso Amorim já indicou o mote da soberania ao afirmar que criar um “pretexto para intervenção é inaceitável”. O anúncio foi feito pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, com quem Flávio também se encontrou. A nota na qual o comunicado foi feito afirma que os grupos são “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”. O texto afirma que PCC e CV foram classificados como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs, na sigla em inglês). Eles vão ainda receber a designação de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) a partir de 5 de junho. “Juntos, eles comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, funcionários públicos e civis brasileiros. A sua influência e redes ilícitas estendem-se muito além das fronteiras do Brasil, através da nossa região e do nosso país”, frisa o comunicado. A classificação como FTO é direcionada a organizações estrangeiras e torna ilegal fornecer “apoio material ou recursos” a quem consta na lista. Instituições financeiras americanas que tomem conhecimento de que estão gerindo fundos de interesse de um desses grupos tornam-se obrigadas a “reter a posse ou o controle sobre os fundos e reportar os fundos ao Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA”. Já a designação SDGT é focada em organizações ou indivíduos e faz com que as propriedades dos alvos que estejam nos EUA sejam automaticamente bloqueadas. Americanos ou pessoas dentro do país ficam proibidas de fazer “qualquer transação ou negociação envolvendo bens ou interesses em bens bloqueados”. Isso inclui, por exemplo, o “fornecimento ou recebimento de qualquer contribuição de fundos, bens ou serviços para ou em benefício de indivíduos ou entidades designados.” A amplitude da medida pode ter impactos no mercado financeiro, pela possibilidade de sanções diante da infiltração do crime organizado em setores formais da economia, e nas relações diplomáticas os dois países, uma vez que os EUA já usaram o combate ao “narcoterrorismo” como justificativa para ações militares fora do seu território. A lista de organizações tidas como terroristas pelos Estados Unidos tem grupos como a Al Qaeda, que promoveu o ataque às Torres Gêmeas em 2001, o Hezbollah e o Tren de Aragua, da Venezuela. Trunfo eleitoral No campo político, a campanha de Flávio viu o anúncio como trunfo eleitoral, especialmente após as semanas de crise com a revelação das mensagens trocadas pelo senador com o banqueiro Daniel Vorcaro. Já havia uma decisão do novo comando de comunicação de explorar mais os temas ligados à segurança, o que ganha força com a novidade. O objetivo é associar o senador ao endurecimento contra o crime organizado, além de aprofundar a vinculação política e simbólica com o trumpismo. “Em uma viagem como presidenciável, fizemos mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros do que o PT e Lula em seus 17 anos de mandato. Enquanto Lula foi de joelhos atrás do Trump fazer lobby a favor do PCC e CV, eu fui trabalhar para que fossem tratados como terroristas”, afirmou Flávio nas redes sociais, pouco depois de falar em “grande dia”. O publicitário Eduardo Fischer, à frente da estratégia do pré-candidato, disse que a medida representa uma “proteção ao povo brasileiro, que vai se desvencilhar do perigo”. Já o governo se dedicou nos últimos meses a evitar a iniciativa do governo americano, por temer efeitos econômicos e eventuais riscos à soberania nacional. No encontro que teve com Trump neste mês, Lula afirmou que o assunto não foi tratado, mas em entrevista após a reunião propôs a criação de um grupo de trabalho para enfrentar o crime organizado. A segurança é um tema que o governo vê como sensível eleitoralmente, pelo impacto na vida dos brasileiros e a percepção de que parte da população vê a esquerda tradicionalmente como frágil no combate aos criminosos. Assim, ainda que haja o entendimento de que a lei brasileira prevê como terrorismo atos distintos daqueles praticados pelas facções, o Palácio do Planalto calibra o tom da reação oficial. O temor é que uma manifestação possa ser vista como branda, colando no governo a imagem de “defensor de bandidos”. Em meio a aproximação diplomática dos dois países, após o período conturbado do tarifaço, o governo brasileiro foi pego de surpresa. No início da semana, em entrevista ao GLOBO, o ministro Wellington Lima e Silva havia dito que não via possibilidade de a medida ser adotada em um “horizonte próximo”. Quem se manifestou até o momento foi o assessor especial da Presidência Celso Amorim, conselheiro de Lula para assuntos internacionais. Horas antes da decisão dos EUA, ele já havia afirmado em um discurso em um fórum na Rússia que a medida não era o melhor caminho. Após a oficialização, defendeu a atuação integrada entre os países, mas ponderou que não pode representar um argumento contra a soberania nacional. “Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”, disse Amorim em nota. (*Estagiário sob supervisão de Luã Marinatto)