A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abre caminho para uma eventual interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira, segundo alertas de organizações que se manifestaram contra a decisão do governo Donald Trump. Anunciada após a visita do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) à Casa Branca, a medida tem sido apontada por críticos como uma demonstração de interesse do governo americano em temas do debate interno no Brasil, reacendendo o debate sobre a defesa da soberania nacional. Sami Sternberg, um dos porta-vozes do Pacto pela Democracia — coalizão brasileira com mais de 200 organizações da sociedade civil que atuam na defesa e fortalecimento da democracia —, disse que vê risco de "instabilidade" para o processo eleitoral. Para ele, que atua na coordenação de relações internacionais da organização, o assunto exigirá "vigilância" popular. "A política externa do governo Trump tem um direcionamento explícito de intervencionismo para a região, de modo que esta pode ser a primeira ação prática daquele país que pode gerar instabilidade às nossas eleições. A sociedade civil brasileira já vem monitorando esse e outros riscos de interferência externa, e seguirá vigilante na denúncia de ações que atentam contra a nossa soberania", afirmou ao Valor. Segundo Sternberg, que endossa a visão de "ataque à soberania nacional", a medida ainda "estabelece um precedente para a realização de operações militares em território nacional sem anuência do Estado ou do povo brasileiro, além de abrir caminho para a imposição de sanções institucionais que podem impactar gravemente o sistema financeiro nacional e, em última instância, empresas e cidadãos comuns". Ao comentar a iniciativa do governo Trump, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública criticou o uso político da questão, lamentando que "um tema com implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na sua economia, no sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional, tenha sido capturado pela disputa eleitoral". Segundo nota da organização, o apoio "explicitado por muitos políticos" no Brasil à medida "demonstra visões reducionistas e descoladas das reais tarefas que o poder público precisa colocar em prática para retomar territórios e regular mercados e setores usados pelo crime organizado, como fintechs, bets, criptoativos, entre outros setores". Diferentes especialistas ressaltaram que o anúncio dos EUA a poucos meses da eleição para o Palácio do Planalto reforça a preocupação sobre pressão externa. "Em um ano de eleições presidenciais, essa classificação ganha uma nova camada de relevância", observou Sternberg, do Pacto pela Democracia. Na prática, o temor está ligado ao fato de que a nova classificação adotada pelo governo dos EUA dá margem a uma série de intervenções, inclusive a possibilidade de operações militares no território, ampliando a influência de Trump sobre os rumos políticos internos e o debate eleitoral. Trump discursa durante reunião de gabinete na Casa Branca — Foto: Evan Vucci/Reuters