O recente surto de ebola na República Democrática do Congo já era previsível em uma área marcada por extrema pobreza, conflitos armados e acesso limitado à saúde.

O conflito envolvendo as forças de segurança congolesas e o grupo rebelde M23, apoiado por Ruanda, decorre da fragilidade do Estado congolês, de tensões étnicas e da disputa por minerais estratégicos.

A província de Ituri, no leste do Congo, onde ocorre parte do conflito, é rica em minerais como coltan, cobalto e tungstênio, que geram grandes receitas. Esses minerais, essenciais para a produção de smartphones, computadores, baterias de veículos elétricos e aeronaves, financiam e prolongam a guerra, fortalecendo milícias e redes locais fora do controle estatal.A abertura de minas artesanais e a devastação das florestas podem deslocar o "fruit bat" —morcego frugívoro, conhecido reservatório do vírus ebola— de seu habitat natural, nas densas florestas tropicais, para áreas como galerias de mineração. A caça direta e o contato com animais mortos, fezes, sangue e urina desses mamíferos podem causar o chamado "spillover" —isto é, a transmissão do vírus ebola de uma espécie animal, no caso os morcegos, para os humanos.

O "spillover" é um fenômeno conhecido e já ocorreu com diversos patógenos, como Sars-CoV-2, Mers e HIV, além do vírus da dengue, zika e hantavírus. Esse fenômeno parte da premissa de que a intervenção humana desordenada na natureza favorece o contato com patógenos que circulam naturalmente nos ecossistemas.