Espécie diferente do vírus, número elevado de casos já no início do surto e ocorrência em zona de conflito são fatores que dificultam a contenção da doença Sepultamento de vítima do Ebola na RDC. — Foto: Seros MUYISA / AF RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/05/2026 - 08:31 Surto de Ebola na RDC: Espécie Rara e Conflito Aumentam Risco O surto de Ebola na República Democrática do Congo é alarmante por ser desencadeado pela rara espécie Bundibugyo, sem vacinas específicas, ocorrer em zona de conflito e apresentar um número elevado de casos desde o início. A OMS declarou emergência internacional devido à rápida disseminação e à complexidade do contexto, agravada por insegurança e desconfiança local. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Neste domingo, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que já são mais de 900 casos suspeitos, incluindo 101 confirmados, no surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC). Na atualização anterior, da última sexta-feira, eram quase 750 casos e 177 mortes pelo vírus. Além disso, o Ministério da Saúde de Uganda confirmou, nesta segunda-feira, que o número de registros confirmados no país vizinho subiu para sete. O cenário levou o chefe da OMS a decretar emergência de saúde pública de importância internacional, o estágio mais elevado de alerta da organização, no meio de maio. Na ocasião, Tedros demonstrou preocupação com a rapidez da disseminação do Ebola no surto. Essa é a 9ª vez que a OMS instaura o mais alto nível de alerta – e a terceira relacionada ao vírus Ebola. Abaixo, entenda em 3 pontos por que esse surto é diferente dos anteriores. 1. Espécie diferente A Ebola é uma zoonose, ou seja, uma doença que circula entre animais. Acredita-se que morcegos frugívoros sejam os principais reservatórios naturais do vírus, e que a infecção entre humanos ocorra pelo contato próximo com sangue ou secreções de animais contaminados. Depois, porém, o vírus pode se espalhar entre humanos pelo contato direto com sangue, secreções, órgãos ou outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou por superfícies contaminadas. A doença é causada por vírus que pertencem ao gênero Orthoebolavirus, da família Filoviridae. Existem seis espécies de vírus do tipo, sendo que três delas são conhecidas por causarem grandes surtos, de acordo com a OMS: Vírus Ebola Zaire (EBOV) - Orthoebolavirus zairenseVírus Sudão (SUDV) - Orthoebolavirus sudanenseVírus Bundibugyo (BDBV) - Orthoebolavirus bundibugyoense As espécies Zaire e Sudão são as mais comuns nos surtos de Ebola em países africanos. A emergência atual, no entanto, é causada pela espécie Bundibugyo, que só foi detectada outras duas vezes: em surtos de 2007 e 2012. Uma das dificuldades é que não existem vacinas e tratamentos específicos para essa espécie, como existem, por exemplo, para o Zaire. Isso ocorre, entre outros motivos, justamente pela raridade do vírus, já que sua circulação é necessária para testar a eficácia e a segurança das terapias. Escala do surto Outra diferença é a escala do surto atual quando ele foi notificado. Devido à alta letalidade do Ebola, que chega a cerca de 50% dos casos, quando há a suspeita de uma infecção, ela é rapidamente informada às autoridades, que iniciam as medidas de contenção do vírus. Em setembro do ano passado, por exemplo, a RDC notificou a OMS sobre casos suspeitos de Ebola no país antes mesmo que fossem confirmados. Quando o surto foi declarado pelo Ministério da Saúde do país, eram 28 casos. Ele chegou ao fim em dezembro após um período de 42 dias sem novos registros. Ao todo, foram somente 64 infectados e 45 mortes. Em outros surtos de magnitude maior, como o que teve início na Guiné e se tornou a maior epidemia de Ebola já registrada, em 2014, as autoridades também foram notificadas rapidamente. Ao declarar que era um surto pelas autoridades de saúde, por exemplo, eram apenas 49 casos suspeitos e 29 mortes identificadas na época. Dessa vez, porém, foi diferente. Quando a RDC notificou a OMS, no início de maio, já eram 246 casos suspeitos e 80 mortes por Ebola. Essa rapidez e amplitude de disseminação foram fatores que levaram o diretor-geral da organização a declarar emergência internacional. Trajetória dos últimos grandes surtos de Ebola. — Foto: Nature / OMS Algo que levou à demora do diagnóstico é que os testes iniciais realizados na RDC apresentaram resultados negativos para a cepa Zaire do Ebola, e não havia exames para o Bundibugyo disponíveis na região. Além disso, os sangramentos nasais característicos do Ebola só começaram no quinto dia de infecção. Por isso, apenas quando amostras foram enviadas e analisadas na capital do país, Kinshasa, é que o vírus foi confirmado. Zonas de conflito Por fim, a OMS tem relatado dificuldade para controlar o surto devido à região ser caracterizada por um “contexto epidemiológico, operacional e humanitário altamente complexo, marcado por insegurança, deslocamento populacional e áreas tanto densamente povoadas quanto remotas”, como explicou Anne Ancia, representante da organização na RDC. Neste domingo, Tedros disse que, na província de Ituri, epicentro do surto, quase 5 milhões de pessoas vivem em meio a um conflito contínuo. 1 em cada 4 pessoas precisa de assistência humanitária, e 1 em cada 5 está deslocada internamente, complementou o chefe da OMS: — A violência está forçando as pessoas a fugir, incluindo trabalhadores da saúde e da assistência humanitária. Isso está prejudicando gravemente os esforços para ampliar o rastreamento de contatos de Ebola e identificar infecções cedo o suficiente para fornecer cuidados de suporte. A insegurança e o medo contínuos também estão alimentando a desconfiança nas comunidades. Além disso, há uma revolta de parte da população que acredita em teorias conspiratórias sobre o Ebola, questionando a existência do vírus. Na última semana, ao menos três ataques a hospitais foram registrados na RDC. Muitas famílias tentam recuperar os corpos das vítimas para realizar rituais funerários tradicionais. No entanto, a OMS destaca que práticas inseguras de sepultamento que envolvem contato direto com pessoas falecidas favorecem a disseminação.
Por que esse surto de Ebola é diferente dos anteriores e preocupa as autoridades de saúde?
Espécie diferente do vírus, número elevado de casos já no início do surto e ocorrência em zona de conflito são fatores que dificultam a contenção da doença
















