PUBLICIDADE Segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, as pessoas não acreditam nem na existência do vírus em parte da República Democrática do Congo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Profissional de saúde coleta amostras de um paciente com doença pelo vírus Ebola no centro de tratamento do Centre Médical Évangélique (CME), em Bunia, Ituri, no leste da República Democrática do Congo — Foto: Benediction Murhabazi / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 19:07 Surto de Ebola no Congo: conflitos e desinformação agravam crise O surto de Ebola na República Democrática do Congo é agravado por conflitos armados, desinformação e uma crise humanitária. Com mais de 450 mortos e 1460 casos confirmados, a situação é complicada pela presença de 120 milícias, dificultando o controle do vírus. A OMS busca soluções, como testar antivirais existentes. A falta de confiança no sistema de saúde e a circulação de informações falsas exacerbam a crise. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Grupos armados, informações falsas e uma crise humanitária de grandes proporções são fatores que complicam, e muito, o controle do Ebola na República Democrática do Congo (RDC), onde a doença já levou à morte mais de 450 pessoas neste ano. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são ao menos 1460 casos confirmados em 2026— isso sem levar em conta a subnotificação que é comum em meio à crise. Tendo como epicentro a RDC, a doença também já foi detectada em Uganda, com 20 casos, e na França, com um. Mesmo nesses outros países, os casos tiveram conexão com a RDC, onde a doença avança mais intensamente. Para se ter uma ideia do tamanho da crise, de acordo com o Centro Global para a Responsabilidade de Proteger, são ao menos 120 milícias e grupos armados que operam em regiões da RDC, um cenário que impede o rastreio de casos e o controle de contactantes — regras de ouro para “sufocar” o avanço da doença. A OMS já denunciou até mesmo ataques a unidades de saúde. Para quem está em campo, tentando chegar às comunidades vulneráveis, é preciso por vezes restringir os próximos passos em nome da própria segurança. — A epidemia acontece exatamente na área onde já existem conflitos e a presença de grupos armados. Cheguei ao Beni [cidade no noroeste da RDC] e deveria ir a Butembo [outra cidade], mas por conta do ataque de grupos armados na região, com morte de civis, eu não pude ir, tive que ficar no hotel esperando a situação ficar segura. Isso acontece todos os dias e afeta a epidemia — conta Marie Roseline Belizaire, responsável pela gestão do surto pela OMS na África, ao longo de uma reunião do Fellowship para cobertura de saúde da Universidade de Harvard. — Essa é uma epidemia de desenvolvimento muito rápido, nunca tinha visto isso antes. Entre 2018 e 2020 [quando houve outro surto], nunca houve um dia com mais de 30 registros. Dessa vez houve um dia com 71 casos. Neste ano, o avanço da doença é causado pela espécie Bundibugyo, para a qual não existe vacina nem tratamentos específicos, o que dificulta ainda mais o controle dos casos. A busca por soluções para a crise, contudo, estão em andamento. Na quinta passada, a OMS anunciou que recrutaria voluntários da RDC para avaliar se duas moléculas já existentes poderiam aumentar as chances de sobrevivência de quem teve contato com a doença. Entre os candidatos, está o antiviral Remdesivir, aprovado para o tratamento da Covid-19. Em anos anteriores, a doença foi causada pela espécie Zaire do Ebola, para a qual há testagem e vacina. Agora, diz Belizaire, é preciso voltar às comunidades para alertar as pessoas de que a imunização anterior não funciona para o surto atual. — No surto entre 2018 e 2020, não precisamos fazer essa diferenciação para a comunidade. Nós apenas falamos sobre o Ebola, em geral. Digo a eles que o Ebola tem seis filhos, e que agora é outro filho que está em circulação. Essa é uma maneira de colocar em palavras que eles podem compreender — explica Belizaire. Outros especialistas ainda ponderam que a desestruturação do Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) pelo governo do presidente Donald Trump também dificultou a resposta ao avanço do vírus. Desinformação A falta de compreensão sobre o Ebola e suas espécies é outro complicador para a crise em andamento, o 17º surto do vírus da história da RDC. O especialista em impactos da desinformação, Christopher Nehring, preparou levantamento sobre o impacto de informações incorretas da atual crise para a fundação alemã Konrad Adenauer Stiftung. No material, ele avaliou que a região é afetada por informações falsas que chegam a questionar a própria existência da epidemia. — As pessoas não acreditam nem na existência do vírus nessas regiões. Elas seguem entrando em hospitais, clínicas e locais onde há pessoas doentes e saem disseminando o vírus. Essa descrença no vírus e em como ele se espalha faz com que haja também transmissão nos velórios tradicionais — explica. Ele diz, porém, que esse tipo de desinformação não circula por meio de “deepfakes”. Ocorre por meio de conversas informais e canais de WhatsApp. Lamentavelmente, essa não é a primeira vez que a desinformação tem impacto em crises de Ebola na região. — Em surtos anteriores, chegaram a dizer que a vacina era mais danosa que o vírus — afirma Christopher. Crise humanitária Para controlar a crise de saúde, explica Paul B. Spiegel, diretor do Centro Johns Hopkins para Saúde Humanitária, é preciso ter em vista, além da cartilha de controle da doença (como rastreio de contatos e testagem para identificar novos casos). É preciso “abordar questões como segurança, alimentação, acesso à água, transporte e serviços básicos”. — As pessoas podem estar deslocadas, passando fome, vivendo em áreas inseguras ou profundamente desconfiadas do governo e de atores internacionais —disse ao GLOBO. — A província de Ituri e outras áreas do leste da RDC sofrem com conflitos armados, deslocamentos populacionais, infraestrutura de saúde precária, ataques a unidades de saúde, desinformação e intensa mobilidade da população. O controle do Ebola depende do rastreamento eficiente de contatos, do isolamento rápido dos casos e da cooperação das comunidades, justamente os elementos que se tornam mais difíceis de garantir em uma zona de conflito. A maior preocupação, explica o professor, se refere à probabilidade de que a doença ganhe força em países vizinhos em vez de uma escalada global: — Há preocupação com a propagação onde o fluxo transfronteiriço é intenso e a capacidade de vigilância epidemiológica é desigual, como para o Sudão do Sul.
Ebola: Surto na África é agravado por emergências humanitárias e de segurança
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