Publicação nas redes sociais é mais um exemplo da enxurrada de desinformação que acompanha a mais recente epidemia, que já provocou 115 mortes no país 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Trabalhadores da saúde em meio ao surto de Ebola na República Democrática do Congo. — Foto: Jospin Mwisha / AFP A desinformação está dificultando os esforços para conter o ebola no leste da República Democrática do Congo (RDC), com graves consequências em campo: atrasos no atendimento médico, recusa em receber cuidados e agressões a profissionais de saúde. "Não há ebola aqui, todo mundo está vivendo a vida ao máximo", diz uma mulher em um vídeo que viralizou, no qual afirma estar no país africano. "O único lugar onde há ebola é nas redes sociais e na imprensa internacional", acrescenta. Essa publicação, que recebeu mais de 41 mil curtidas no X, é mais um exemplo da enxurrada de desinformação que acompanha a mais recente epidemia, que já provocou 115 mortes na RDC. Assim como na pandemia de Covid-19, as notícias falsas vão desde negar a existência da doença até acusar as autoridades de inventá-la com fins lucrativos, explicou a epidemiologista Hemes Nkwa. Tanto na internet quanto nos povoados, alguns atribuem as mortes repentinas à feitiçaria, enquanto outros acreditam que o ebola é uma farsa criada para atrair ajuda estrangeira. A ONG ActionAid estima que na província nordeste de Ituri, epicentro do atual surto, quase uma em cada três pessoas acredita que a doença é uma invenção. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, advertiu que "a desinformação é quase tão perigosa quanto o próprio vírus e se espalha com a mesma rapidez". "Quase nos espancam até a morte" A desinformação está atrasando o tratamento porque muitos pacientes só procuram atendimento médico quando já é tarde demais, afirmou Saani Yakubu, diretora nacional da ActionAid. Além disso, dificulta o rastreamento de contatos, já que as famílias ocultam informações e os profissionais de saúde temem visitar as casas. Alguns trabalhadores humanitários e funcionários do governo foram agredidos, declarou à AFP Mamadou Kaba Barry, da ONG Alima. Duas tendas da Alima foram incendiadas no mês passado em um hospital em Ituri, depois que a família de um paciente tentou recuperar o corpo, infringindo as normas de segurança para uma doença na qual não acreditavam. No final de maio, os parentes de um falecido "quase espancaram até a morte" trabalhadores que realizavam um enterro sob protocolo na cidade de Bunia. Desconfiança profunda Embora especialistas afirmem que a desinformação tenha acompanhado todos os surtos de ebola, consideram que disparou nos últimos anos com a ascensão das redes sociais. Além da falta de informação, o problema reflete uma crise de confiança mais profunda, apontou Nkwa. Para Yakubu, da ActionAid, a solução consiste em restabelecer a confiança colaborando de perto com as comunidades, o que também implica capacitar embaixadores para "compartilhar as informações em seus idiomas locais". Para especialistas, líderes comunitários, sobreviventes e até curandeiros tradicionais - que, de acordo com Nkwa, possuem "grande credibilidade social" - podem desempenhar um papel importante. "Quando se tornam aliados, sua influência pode impulsionar significativamente a resposta de saúde pública", concluiu.