Darcy Ribeiro (1922-1997) listou seus fracassos ao receber da Sorbonne o título de doutor honoris causa, em 1978. "Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui", disse no discurso de agradecimento. "Tentei salvar os índios, não consegui", acrescentou. "Tentei fazer uma universidade séria e fracassei", confessou ainda.

Talvez, em breve, Darcy possa acrescentar mais um fracasso à sua lista de derrotas: concebido por ele, o Memorial da América Latina, na cidade de São Paulo, pode deixar de existir como fundação pública voltada à integração cultural dos povos latino-americanos e se tornar mais uma concessão privada de olho no cifrão.

Essa possibilidade se tornou pública após reportagem desta Folha ("Gestão Tarcísio inclui Memorial da América Latina em programa de concessões; diretoria se diz ‘perplexa’", 22/5). No mesmo dia, a artista plástica Maria Bonomi, 90, me mandou uma mensagem dizendo que não doará mais ao memorial o acervo de livros, objetos e documentos (que inclui cartas de Oscar Niemeyer) relacionado ao "Etnias - Do Primeiro e Sempre Brasil", gigantesco —e belíssimo— painel criado por ela na entrada do complexo no bairro da Barra Funda.

No dia seguinte, no Espaço Cultural Elza Soares, a filósofa Marilena Chauí, 84, alertou para o espectro que ronda o mundo atualmente: não o do comunismo, mas do totalitarismo. "E o que caracteriza o totalitarismo?", perguntou. "É quando a sociedade assume uma única forma —a forma empresa", respondeu. Forma esta que se espalha para a educação, a saúde, o empreendedorismo e, talvez, para um complexo cultural público, como o Memorial da América Latina.