Em encontro no Cebri, economista americano diz que política 'predatória' dos EUA no continente freia progresso regional O presidente dos EUA, Donald Trump — Foto: Kent NISHIMURA / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/05/2026 - 21:43 Jeffrey Sachs: União Latino-Americana é Resposta à Política dos EUA No encontro do Cebri, o economista Jeffrey Sachs destacou que a política "predatória" dos EUA sob Trump oferece uma oportunidade para a união latino-americana. Com a América Latina necessitando de maior unidade política e econômica, Sachs sugere que a região deve se unir para resistir à interferência dos EUA e aproveitar o cenário multipolar global. O fortalecimento regional pode transformar a América Latina em um mercado significativo e base de recursos, desafiando a hegemonia dos EUA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em julho de 1826, o Congresso do Panamá se consolidava como o primeiro e principal antecedente histórico da integração latino-americana. Convocado pelo venezuelano Simón Bolívar, o encontro buscou criar uma confederação de repúblicas hispano-americanas que fossem capazes de coordenar a defesa comum, resolver conflitos e fortalecer a posição da América Latina frente às potências estrangeiras, mas perdeu força diante de divisões políticas encabeçadas por grandes nações, incluindo o Brasil. Quase 200 anos mais tarde, no entanto, a ideia de união nas Américas permanece sendo vista como um potencial a ser explorado — e, diante das rápidas mudanças globais provocadas pelos Estados Unidos sob Donald Trump, analistas acreditam que, juntos, países da região têm uma oportunidade estratégica a ser explorada. — A América Latina tem, ao mesmo tempo, uma necessidade e uma oportunidade. A necessidade é de mais unidade e escala em termos políticos, econômicos e de segurança. Se os EUA simplesmente continuarem atacando um país de cada vez, interferindo na política doméstica, invadindo aqui e sequestrando presidentes ali, esta região jamais experimentará o progresso — afirmou o economista americano Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia. — E a oportunidade é estratégica porque o mundo tornou-se multipolar. Sachs participou nesta semana do segundo encontro da rede de Centros de Pensamento das Américas (Cepas), na sede do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio. O encontro reuniu representantes de oito dos principais centro de estudos da região e da Espanha e criou o espaço para lideranças institucionais e acadêmicas debaterem os desafios que moldam o futuro da América Latina. O especialista defendeu a atuação latino-americana como um grupo único em oposição à tentativa de controle dos EUA, que, no governo Trump, tem mostrado “um lado ainda mais cruel e problemático”. — A mentalidade dos EUA neste momento provavelmente está se tornando mais predatória. Uma das razões talvez seja que Trump, à sua maneira estranha, pode estar percebendo que os EUA têm limites na Rússia, no Oriente Médio e no Leste Asiático, mas não nas Américas — afirmou. — Na visão de Trump, os Estados Unidos são donos das Américas, e todos os demais devem ficar de fora. Essa é uma das razões pelas quais acredito que os EUA podem se tornar mais perigosos, e não menos, nos próximos anos. Controle militar Na medida em que o poder relativo de Washington em relação a Pequim diminui, o controle militar americano sobre o Ocidente torna-se cada vez mais importante, avaliou o analista Francisco de Santibañes, presidente do Conselho Argentino de Relações Internacionais (Cari). O impacto disso, porém, deve ser sentido de formas diferentes pela região: para ele, o Cone Sul poderá ser a área mais conflituosa porque é onde a China tem maior presença econômica, enquanto os EUA continuam sendo o poder hegemônico no plano militar. — Estamos enfrentando uma maior centralidade estratégica [dos EUA] na América Latina sem estarmos preparados. Em parte porque faz gerações que não participamos de um jogo estratégico e temos vários déficits. Teremos de navegar este período com muita habilidade diplomática, sem provocar Washington desnecessariamente, mas sem que isso nos impeça de manter relações econômicas com os demais países. Segundo Sachs, o Atlântico Norte já não é o centro da economia mundial. Para a América Latina, disse, isso significa que o comércio e os investimentos estarão cada vez mais ligados a outras regiões, em especial China, Índia e África. Na avaliação dele, a projeção pode ser positiva para a América do Sul, que já tem um bom diálogo com Pequim, ao mesmo tempo em que reúne oportunidades centrais: — Se a América Latina estiver integrada, terá 700 milhões de habitantes, comparados aos 400 milhões do Norte. É um grande mercado e uma enorme base de recursos. Se a infraestrutura física sustentar isso, por meio de ferrovias rápidas ligando o Atlântico ao Pacífico, seria possível conectar a América do Sul à Ásia de maneira muito eficiente. Isso mudaria a natureza das relações atuais, em que nações latino-americanas estão estagnadas economicamente, pressionadas do ponto de vista da segurança ou enfrentando inseguranças crescentes. Santibañes, no entanto, citou também outros riscos importantes: a falta de investimento em defesa, sem diversificação de aliados militares no desenvolvimento de armamentos, e a atuação não só dos EUA, mas da China. Segundo o analista, diante da pressão de duas grandes potências, o risco é que alguns países da região se aliem a Pequim e ao Brics, enquanto outros se aproximem mais de Washington, contribuindo para a construção de um cenário de disputas na América do Sul. Tanto em segurança quanto em política externa, disse, há a necessidade de maior coordenação das políticas da região: — Isso é um desafio enorme porque, hoje, elites políticas tendem a subordinar a política externa às questões domésticas, a uma agenda interna, o que dificulta um planejamento de longo prazo — afirmou. Sem coerência regional Tudo isso, na visão de Sachs, levanta a questão central, definida por ele como um enigma: por que a América Latina não é unificada? Do ponto de vista prático, afirmou, a riqueza geográfica e demográfica da região se equipara — ou mesmo supera — à da América do Norte: tem maior território, produz alimentos, tem mais biodiversidade e terras-raras. Também não é especialmente vulnerável às mudanças climáticas, é altamente urbanizada e deverá escapar ao crescimento populacional desordenado. Apesar disso, há ainda um entrave importante: a ausência de uma capacidade estratégica regional. — Não há autonomia, estabilidade monetária ou sistema financeiro regional que proporcione estabilidade. Isso torna a região não apenas dependente, mas vulnerável a choques, muitos deles fabricados pelos EUA — declarou Sachs. — Muitas das limitações da região decorrem da falta de coerência regional, e tudo remete a Washington. A pergunta que fica é: esta região consegue assumir um propósito unificado e uma posição estratégica?