O que deve acontecer na América Latina em 2026? Veja o vídeoRegião deve contar com tentativas de influencia do governo americano e mais presença militar de Washington. Crédito: Carolina Marins e Gabriella LodiEm um momento em que o mundo está mergulhado em uma sucessão de crises, a geopolítica deixou de ser um risco periférico para se tornar um fator central na tomada de decisões econômicas. As guerras envolvendo países como Ucrânia, Rússia, Irã, Israel, Estados Unidos, Líbano, Sudão, Iêmen, Mianmar, Paquistão, Afeganistão e República Democrática do Congo — parte de cerca de 60 conflitos armados com participação estatal atualmente em curso no mundo, segundo o Peace Research Institute Oslo (PRIO) — indicam que a instabilidade internacional não é mais uma exceção; tornou-se uma regra.É justamente nesse cenário que a América Latina ganha destaque. Tradicionalmente associada a desafios como corrupção, desigualdade e crime organizado, a região passa hoje a ser vista sob uma nova lente: a de um espaço relativamente protegido das tensões geopolíticas que marcam outras partes do mundo. Em um sistema internacional cada vez mais imprevisível, essa característica passou a ser uma vantagem estratégica.Em um momento em que o mundo está mergulhado em uma sucessão de crises, como a guerra no Irã (foto), a geopolítica deixou de ser um risco periférico para se tornar um fator central na tomada de decisões econômicas Foto: Hassan AmmarPUBLICIDADEÉ claro que a América Latina não está totalmente livre de tensões geopolíticas. Colômbia e Equador têm tido uma relação marcada por tensões recentes; o Haiti vive em estado de anarquia há anos; Cuba mal sobrevive a um colapso econômico ante o embargo americano que, na prática, cortara o fornecimento de petróleo ao país; e a Venezuela viu Nicolás Maduro ser derrubado por uma ação militar do governo americano. As crescentes fricções entre Washington e Pequim também impactam a política latino-americana: recentemente, sob pressão de Donald Trump, a Suprema Corte panamenha expulsou a operadora chinesa dos portos do Canal do Panamá. Além disso, a América Latina convive com a expansão do crime organizado — em países como Equador e Colômbia, o poder paralelo do narcotráfico representa ameaça real à governança —, com desigualdade estrutural e deficiências graves em infraestrutura.No entanto, nenhuma dessas situações corre o risco de se transformar em um conflito de proporções semelhantes ao que vemos no Irã ou na Ucrânia, impactando não apenas a sociedade desses países, mas desestabilizando toda a região ao seu redor. Enquanto cresce a probabilidade de que países europeus e asiáticos (como Alemanha e Japão) desenvolvam armas nucleares ao longo dos próximos anos, esse cenário é remoto na América Latina, uma zona livre de bombas atômicas. Não há, na América Latina, disputas territoriais relevantes entre Estados, nem corridas armamentistas significativas.PublicidadeAlém disso, o risco político doméstico, embora presente, é frequentemente mais baixo do que em democracias em outras regiões. Enquanto países como França ou Reino Unido enfrentam níveis elevados de incerteza política — com a possibilidade de vitórias eleitorais de forças anti-establishment capazes de promover rupturas significativas se chegarem ao poder no próximo ciclo eleitoral —, países como Chile e Uruguai oferecem maior previsibilidade institucional. A eleição de Javier Milei, por exemplo, traz menos imprevisibilidade do que uma possível vitória do partido de Marine Le Pen na França, que teria o potencial de impactar o funcionamento da União Europeia. Da mesma forma, não passa despercebido entre investidores que, no novo ranking global de democracia do respeitado grupo de pesquisadores V-DEM, o Brasil, o Uruguai e o Chile recebem pontuação acima da dos Estados Unidos, onde é incerto se o presidente Trump aceitará os resultados das próximas eleições.Leia tambémComo o Brasil pode se tornar protagonista global na corrida dos minerais críticosRearranjo chinêsA atratividade da América Latina, vale lembrar, vai além de sua posição geopolítica. Por exemplo, a região concentra minerais críticos, como lítio, cobre e níquel; tem grande potencial em energias renováveis; e desempenha papel central na oferta global de alimentos como importante exportadora agrícola.Nada disso significa ignorar os desafios persistentes da região. Problemas como baixa produtividade, insegurança pública e fragilidade institucional em alguns países continuam a limitar seu potencial. Da mesma forma, é provável que, no futuro, as tensões geopolíticas globais comecem a impactar a América Latina de forma mais direta, sobretudo diante de tentativas cada vez mais assertivas dos EUA de limitar a influência econômica chinesa na região. Blindar-se contra essas dinâmicas e manter relações produtivas com todos será o maior desafio da política externa dos países da América Latina. Isso inevitavelmente envolve, no Brasil, elevar gastos de defesa. No entanto, em comparação com outras regiões, tudo indica que o impacto sobre o Brasil e seus vizinhos seja menor do que na média global.Se, como tudo indica, o século XXI será marcado por competição entre grandes potências e conflitos recorrentes, regiões menos expostas a isso tendem a se tornar mais atraentes. A América Latina, com todas as suas imperfeições, pode ser uma das principais beneficiárias dessa nova realidade.Publicidade