Quem anda de Ferrari conhece de longe o ronco único de seu motor e suavidade da troca de marchas. Mas com o lançamento do primeiro carro elétrico da montadora italiana as características que fizeram de seus modelos os mais disputados do mundo ficaram para trás e até o Papa Leão XIV foi apresentado ao novo modelo em Castel Gandolfo, residência de verão dos papas nos arredores de Roma. O encontro com o Pontíficie reuniu o presidente da Ferrari, John Elkann, e altos executivos da empresa antes da apresentação oficial do veículo. O carro foi exibido inicialmente coberto por um pano vermelho. Após a revelação, Leão XIV observou o modelo por fora e, em seguida, sentou-se ao volante. Durante a experiência, Leão XIV ouviu explicações sobre o funcionamento do automóvel dadas por Raffaele De Simone, piloto de testes da Ferrari. As orientações abordaram os controles e os modos de condução do novo modelo, criado em parceria com o ex-chefe de Design da Apple Jony Ive. O Papa também recebeu de presente um volante do carro, avaliado em US$ 640 mil, cerca de R$ 3,2 milhões. Para Luís Claudio Salvestroni, diretor de criação executivo da agência House of Rabbits, "a Ferrari é uma religião". Segundo ele, o novo modelo pode ser classificado como o "maior desafio de reposicionamento estético do século". Para ele, a "paixão mecânica pura" dará lugar a "eletrônica de luxo”. — Há consumidores que continuarão apaixonados pela cor vermelha e o ruído do V12 de Maranello, e é normal que os consumidores tenham resistido ao novo modelo nas redes sociais, mas os bilionários da tecnologia e o mercado de luxo asiático querem participar de uma nova história. A Ferrari sabia que era preciso correr esse risco e fez isso se diferenciando dos atuais modelos elétricos de alto padrão colocando o Luce num segmento superior de design e tecnologia, e uma experiência inédita ao dirigi-lo. Batizado de Ferrari Luce, o modelo de quatro portas e cinco lugares e que custa a partir de € 550.000 (R$ 3,2 milhões) não conseguiu manter o status da Ferrari, dizem especialistas em marketing. Para eles, alterações no design e até escolhas de cor que fogem do imaginário clássico da marca acabam causando estranhamento no público. Até Luca Cordero di Montezemolo, presidente da empresa entre 1991 e 2014, criticou o modelo. — Com marcas tradicionais como a Ferrari, preservar alguns códigos visuais e emocionais é fundamental para manter a conexão com os seus consumidores. Principalmente porque, no mercado de luxo, as pessoas compram muito mais do que um produto. Compram história, identidade e reconhecimento imediato. Críticas e memes ganham uma proporção enorme em poucas horas, principalmente quando o público sente que a marca está se afastando da sua identidade tradicional - avalia Erico Braga, diretor de criação global associado da Olixir em New York. É um aspirador de pó? Na internet, uma profusão de memes. Usuários compararam o novo carro a um aspirador de pó, publicaram imagens alteradas digitalmente e fizeram montagens com veículos amassados. Um dos comentários dizia: “A Ferrari acabou de matar sua marca, assim como a Jaguar fez. Isto vai direto para o lixo do ferro-velho”. Ferrari elétrica: Primeiro EV da marca recebe 'chuva' de críticas, é alvo de memes e causa queda nas ações; veja — Foto: Reprodução: X e Ferrari.com Outros internautas associaram o design a um carro mal desenhado por Homer Simpson, da série “Os Simpsons”, e a montagens geradas por inteligência artificial. Para Braga, quando essa repercussão negativa se mistura com queda nas ações e dúvidas do mercado, a discussão deixa de ser apenas sobre o produto e passa a questionar a estratégia da marca como um todo. — Faltou construir uma transição mais natural entre tradição e inovação. A Ferrari sempre foi associada a códigos de marca muito fortes, como a cor vermelha e o design aerodinâmico, por exemplo. No lançamento do elétrico, talvez tenha faltado reforçar melhor esses atributos tradicionais da marca. Quando você mexe em símbolos tão fortes, qualquer mudança visual ou conceitual ganha um peso muito maior. O público entende que inovação é necessária, mas espera continuar reconhecendo a essência da marca nessa evolução. Alexia Chlamtac, sócia da agência Ondina, lembra que o peso de uma marca e toda a sua história ajudam a gerar confiança inicial do público, mas não garante automaticamente o sucesso de um lançamento. Para ela, hoje, tudo é testado nas redes sociais: — Existe um público extremamente conectado à tradição da Ferrari, ao barulho do motor, à mecânica e à experiência clássica de dirigir um carro esportivo. Naturalmente, isso pode gerar estranhamento no primeiro momento. Ao mesmo tempo, a Ferrari também está olhando para um contexto de transformação, inovação e mudança de comportamento do mercado. A queda nas ações e críticas públicas geram pressão e podem afetar a percepção do mercado. No entanto, ela pondera que existe uma nova geração de consumidores que já nasce conectada à lógica da eletrificação e que vê os carros elétricos como o futuro: — Talvez o desafio tenha sido equilibrar melhor essa transição entre tradição e inovação na narrativa do Talvez o desafio tenha sido equilibrar melhor essa transição entre tradição e inovação do lançamento, reduzindo a sensação de ruptura para os fãs históricos da marca.